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Saúde

Pressão por sexo no pós-parto expõe mulheres a riscos

Especialistas alertam que retomada precoce da vida sexual após o parto pode causar complicações, enquanto mulheres relatam cobranças e sofrimento durante a recuperação
Por O Correio de Hoje
25/06/2026 | 13:50

O período pós-parto, conhecido como puerpério ou resguardo, voltou ao centro do debate nas redes sociais após a repercussão de declarações do cantor Nattan sobre a recuperação da esposa, Rafa Kalimann. As falas provocaram críticas e levaram mulheres a compartilhar experiências de pressão para retomar a vida sexual antes do término da recuperação física e emocional após o nascimento dos filhos.

Em entrevista concedida em fevereiro, o cantor afirmou: “Na hora que a fábrica abrir, eu não vou perder tempo. Se ela quiser se esquivar, eu: não, vem para cá, e vai vir”. A repercussão gerou uma onda de relatos de mulheres que disseram ter enfrentado cobranças, chantagens e insistência de parceiros para interromper o resguardo antes de estarem preparadas.

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Puerpério é marcado por mudanças hormonais - Foto: magnific

Especialistas ouvidas pela reportagem alertam que a retomada precoce das relações sexuais pode trazer consequências físicas e psicológicas. Entre os riscos estão infecções, abertura de pontos cirúrgicos, sangramentos, dor intensa, desconforto persistente e até impactos duradouros na vida sexual da mulher.

O puerpério é o período em que o organismo feminino passa por profundas transformações para retornar gradualmente às condições anteriores à gestação. A fase envolve recuperação do útero, cicatrização de feridas decorrentes do parto, reorganização hormonal e adaptação emocional à maternidade. A duração desse processo varia entre as mulheres. Embora a recomendação mais comum seja aguardar cerca de seis semanas, ou 42 dias, especialistas ressaltam que não existe um prazo único e definitivo.

Segundo Sandra Cristina Poerner Scalco, ginecologista e integrante da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o retorno às atividades sexuais deve ser decidido de forma individualizada.

“Antes do critério tempo, devemos pensar no bem-estar”, afirma.

Para a médica, a retomada da vida sexual deve levar em conta a recuperação física da mulher, sua disposição emocional, conforto e desejo sexual.

A trabalhadora autônoma Sara Ferreira, hoje com 28 anos, relata ter vivido essa situação após o nascimento do segundo filho. O parto ocorreu em 2017, com auxílio de fórceps, quando ela tinha apenas 19 anos.

Ainda em recuperação e com pontos na região vaginal, ouviu do então companheiro que ele “não aguentaria tanto tempo” sem relações sexuais. Ferreira afirma que enfrentava um período de exaustão física e emocional. Cuidava de dois filhos pequenos, sentia dores constantes e apresentava sintomas de depressão.

“Era muito nova, com dois bebês, dando conta de tanta carga física e emocional sozinha”, recorda.

Ela relata que a experiência foi marcada por sofrimento físico.

“Foi um sentimento de vazio, dor, desamparo e solidão”, conta.

Segundo Sara, o relacionamento terminou cinco meses após o nascimento do bebê.

As especialistas explicam que, independentemente do tipo de parto, o organismo necessita de um período mínimo de recuperação. O útero precisa retornar gradualmente ao tamanho habitual, o assoalho pélvico necessita de reabilitação e eventuais cortes ou lacerações devem cicatrizar adequadamente.

Karina Belickas, ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana, explica que também ocorre uma intensa reorganização hormonal durante esse período.

Nos casos de cesariana, relações precoces podem aumentar o risco de infecção dos pontos cirúrgicos. Em partos vaginais, cortes realizados no períneo ou lacerações podem reabrir, causando sangramento e dor.

Além disso, a penetração pode provocar desconforto significativo, especialmente nas primeiras semanas após o nascimento do bebê.

Scalco destaca que as duas primeiras semanas exigem atenção especial. Segundo ela, nesse período o risco de infecções e sangramentos é mais elevado porque o colo do útero ainda pode estar parcialmente aberto e o endométrio continua em processo de cicatrização.

Outro fator que influencia diretamente a sexualidade feminina nesse momento é a amamentação. Belickas explica que a produção hormonal associada ao aleitamento pode provocar ressecamento vaginal e alterações semelhantes às observadas durante a menopausa.

A privação de sono causada pelos cuidados com o recém-nascido também contribui para a diminuição da libido.

Mas os impactos não se limitam às mudanças físicas. Para Monalisa Nascimento dos Santos Barros, psicóloga e professora da área de Saúde da Família da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o pós-parto é um período de grande vulnerabilidade emocional.

Segundo ela, a mulher enfrenta uma série de dúvidas, inseguranças e transformações que exigem adaptação. Nesse contexto, a pressão para manter relações sexuais pode intensificar sentimentos de culpa, ansiedade e sofrimento.

De acordo com Sandra Scalco, uma parcela expressiva das mulheres retoma a atividade sexual antes de se sentir preparada. A especialista afirma que essa situação pode provocar sofrimento emocional e até disfunções sexuais permanentes.

A cozinheira Gisele Costa de Lima, de 48 anos, também relata ter enfrentado cobranças durante o puerpério. Após perder o primeiro bebê em 1996 em decorrência de negligência médica, ela ainda se encontrava fragilizada quando o marido passou a pressioná-la para retomar as relações.

“Eu não relutei pois era muito nova, sem orientação nenhuma e confundi isso com afeto”, lembra.

No ano seguinte, quando deu à luz seu segundo filho, as cobranças voltaram. Segundo ela, o companheiro afirmava que ela deveria cumprir suas “obrigações como esposa” e dizia que “não reclamasse, senão ele procuraria outra na rua”.

Sem rede de apoio e enfrentando a maternidade praticamente sozinha, Gisele afirma que suportou a situação em silêncio.

“Sofri calada a cada relação.”

Relatos semelhantes aparecem na história de Gabriella Prado, de 34 anos. Mãe de três filhos, ela lembra das ameaças feitas pelo parceiro após uma cesariana de emergência realizada em 2018.

“Se eu não tenho em casa, tenho que procurar na rua”, ouviu.

A cirurgia havia sido realizada após complicações na gestação e os pontos apresentavam inflamação. Apenas dez dias após o parto, sobrecarregada física e emocionalmente, ela acabou cedendo às pressões.

Segundo Gabriella, a experiência foi marcada por dor e ausência completa de prazer. Posteriormente, ao retornar à ginecologista, recebeu orientação para manter o resguardo pelos 40 dias recomendados. O companheiro, entretanto, acabou mantendo relações extraconjugais.

Especialistas reforçam que a retomada da vida sexual no pós-parto deve ocorrer apenas quando a mulher se sentir fisicamente recuperada e emocionalmente preparada. O consenso médico é que o diálogo, o respeito aos limites individuais e o acompanhamento profissional são fundamentais para uma recuperação saudável durante o puerpério.