A vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia, por menos de um ponto percentual de diferença, inaugura um governo que chegará ao poder sob fortes limitações políticas. Embora tenha conquistado a Presidência, o líder de extrema direita assume sem uma base parlamentar robusta e terá de enfrentar um desafio que marcou o mandato de seu antecessor, o presidente Gustavo Petro: construir maiorias em um Congresso fragmentado para transformar promessas de campanha em políticas públicas.
O resultado apertado amplia as dúvidas sobre a capacidade do novo governo de implementar reformas estruturais. Com apenas cinco representantes de seu partido, Defensores da Pátria, em um Parlamento composto por 284 congressistas, Espriella dependerá de negociações permanentes com outras forças políticas para aprovar projetos e sustentar sua governabilidade.

Para o cientista político Pedro Abramovay, vice-presidente de Programas da Open Society Foundations, a experiência recente de Petro oferece um exemplo dos obstáculos que aguardam o presidente eleito.
“Petro conseguiu aprovar reformas importantes no primeiro ano de governo, como a tributária, quando ainda contava com uma coalizão mais ampla. Mas, à medida que radicalizou seu discurso, foi perdendo aliados. O mesmo dilema agora se coloca para Espriella”, afirmou.
Segundo Abramovay, o novo presidente terá de escolher entre dois caminhos. O primeiro seria buscar uma postura mais moderada para atrair setores da direita tradicional e do centro, ampliando sua base de apoio por meio da negociação política convencional. O segundo seria apostar na mobilização popular e em um discurso mais confrontacional para pressionar o Congresso e sustentar sua agenda.
“Ele pode buscar uma postura mais moderada para atrair a direita tradicional e o centro, ou seja, fazer política tradicional, distribuindo espaços no governo e incorporando esses atores. Ou pode radicalizar e tentar construir mobilizações populares para sustentar sua agenda, eventualmente com apoio dos EUA”, avalia.
Ambas as estratégias, contudo, apresentam riscos. Uma aproximação com partidos tradicionais pode gerar desgaste junto ao eleitorado que apoiou sua candidatura como alternativa ao establishment político. Por outro lado, a radicalização pode ampliar a polarização sem garantir a aprovação das reformas prometidas.
O novo governo contará com um apoio relevante do Centro Democrático, principal legenda da direita tradicional colombiana e segunda maior bancada do Congresso, que declarou apoio à futura administração. Ainda assim, o Pacto Histórico, partido de Petro e de seu candidato à sucessão, Gustavo Cepeda, mantém presença expressiva no Legislativo, tornando inevitável a busca por acordos com outras legendas.
A vitória de Espriella foi impulsionada principalmente pelo voto dos colombianos residentes no exterior. Entre esse segmento do eleitorado, o presidente eleito recebeu 63,8% dos votos, abrindo uma vantagem de 177.809 votos sobre Cepeda. Quase dois terços da diferença final entre os candidatos vieram justamente dessa parcela dos eleitores.
Para Carlos Malamud, pesquisador especializado em América Latina do Real Instituto Elcano, na Espanha, o resultado reduz a margem política para mudanças mais profundas.
“O resultado justo não ajuda muito a impulsionar as reformas mais radicais prometidas durante a campanha. Havia uma inclinação para um cenário em que ele tentasse aprovar mudanças a qualquer custo, seguindo o exemplo da ‘motosserra’ de Javier Milei ou das prisões em massa de Nayib Bukele. Mas, no discurso da vitória, Espriella disse querer ser o presidente de todos os colombianos”, afirmou.
Na avaliação do analista, os primeiros sinais sobre a direção do governo serão dados na composição do gabinete ministerial e da equipe econômica. A escolha dos nomes indicará se o presidente buscará moderação e diálogo ou uma postura mais ideológica e confrontacional.
Malamud também avalia que as instituições colombianas funcionam como um freio a eventuais tentativas de concentração excessiva de poder. Segundo ele, o sistema político do país possui mecanismos de controle mais consolidados do que os observados recentemente em outras nações da região.
“O sistema político colombiano é muito forte, e ele terá de lidar com isso. As instituições são muito mais consolidadas do que no Equador de Daniel Noboa, por exemplo. Petro tentou convocar uma Assembleia Constituinte e teve que dar um passo atrás”, observou.
Apesar da forte polarização da campanha, especialistas não veem risco imediato de crise institucional. Após o resultado, Cepeda pediu calma a seus apoiadores e afirmou que aguardará a conclusão da apuração oficial para reconhecer formalmente o resultado. Manifestações registradas em Bogotá e Cali resultaram em confrontos isolados com forças de segurança.