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Reino Unido

Brexit amplia legado de instabilidade

Renúncia de Keir Starmer ocorre na véspera dos dez anos do referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia e reabre debate sobre os custos políticos e econômicos da decisão
Por O Correio de Hoje
24/06/2026 | 16:28

A renúncia do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, na véspera do décimo aniversário do referendo do Brexit adicionou um novo capítulo a uma década marcada por turbulências políticas, crescimento econômico modesto e sucessivas mudanças de liderança no Reino Unido. A coincidência de datas reforçou um debate que continua presente na política britânica: até que ponto a saída da União Europeia contribuiu para a instabilidade que passou a caracterizar o país desde 2016.

Quando os britânicos foram às urnas em 23 de junho daquele ano, a campanha favorável ao Brexit prometia recuperar soberania política, reduzir a influência de Bruxelas e abrir caminho para uma nova fase de prosperidade econômica. Um dos principais defensores da saída era Boris Johnson, então ex-prefeito de Londres, que descreveu a decisão como uma oportunidade histórica para o Reino Unido.

Starmer Copia
Primeiro ministro britânico, Keir Starmer, anunciou que vai renunciar - Foto: reprodução / internet

“Podemos ver os prados ensolarados”, afirmou Johnson durante a campanha. “Creio que seríamos loucos se não aproveitássemos esta oportunidade única de atravessar aquela porta.”

O resultado foi apertado. Com 52% dos votos, a saída da União Europeia venceu a permanência e produziu consequências que ainda moldam a política britânica. O então primeiro-ministro, David Cameron, que havia convocado o referendo para conter divisões internas no Partido Conservador e frear o crescimento de movimentos eurocéticos, anunciou sua renúncia poucas horas após a derrota.

A decisão abriu um período de forte volatilidade política. Desde então, o Reino Unido teve sete primeiros-ministros: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak, Keir Starmer e, em breve, seu sucessor trabalhista. Em uma década, Downing Street transformou-se em símbolo de uma instabilidade rara na história política recente do país.

O referendo nasceu de um cálculo político que acabou produzindo efeitos opostos aos esperados. Em 2013, Cameron prometeu consultar a população sobre a permanência na União Europeia caso os conservadores vencessem as eleições gerais. O objetivo era neutralizar a pressão crescente de setores eurocéticos e conter o avanço do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), liderado por Nigel Farage.

A vitória conservadora nas eleições de 2015 obrigou Cameron a cumprir a promessa. Em fevereiro de 2016, após negociações com líderes europeus para obter condições especiais para o Reino Unido dentro do bloco, o premiê convocou oficialmente a votação. O plano fracassou.

“Há pessoas que nunca me perdoarão por ter realizado um referendo”, reconheceu Cameron anos depois, em entrevista ao New York Times.

As consequências econômicas do Brexit continuam sendo objeto de debate entre especialistas, mas estudos recentes apontam impactos relevantes sobre o crescimento britânico. Pesquisa do Centro de Pesquisa de Política Econômica estima que, entre 2016 e o fim de 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Reino Unido ficou até 8% abaixo do que poderia ter alcançado caso o país tivesse permanecido na União Europeia.

Na semana passada, o Banco da Inglaterra estimou que a saída do bloco retirou pelo menos 6% do potencial de crescimento econômico britânico ao longo do período.

“O Brexit é um entrave constante para a economia”, afirmou Michael Saunders, ex-integrante do Banco da Inglaterra e atualmente consultor da Oxford Economics.

As dificuldades econômicas contribuíram para a erosão da popularidade de sucessivos governos. Theresa May fracassou na tentativa de aprovar um acordo de saída que unificasse o Parlamento. Boris Johnson assumiu prometendo concluir o processo, mas sua gestão acabou marcada pela pandemia de Covid-19 e pelo escândalo das festas realizadas por integrantes do governo durante o lockdown.

Sua sucessora, Liz Truss, protagonizou um dos governos mais curtos da história britânica. Com apenas 44 dias no cargo, tornou-se símbolo da instabilidade que passou a dominar Westminster. O episódio ficou marcado pela comparação feita pela imprensa britânica entre a duração de seu mandato e a vida útil de uma alface.

Rishi Sunak conseguiu reduzir a inflação e estabilizar parte dos indicadores econômicos, mas não evitou a derrota conservadora nas eleições de 2024. A vitória trabalhista levou Starmer ao poder com a promessa de restaurar a estabilidade institucional, reconstruir relações com a Europa e acelerar o crescimento econômico.

Menos de dois anos depois, porém, o trabalhista também deixou o cargo pressionado pela baixa popularidade e pela insatisfação interna em seu partido.

O cenário político atual sugere que o ciclo de fragmentação está longe do fim. Pesquisas recentes mostram o crescimento contínuo do Reform UK, partido liderado por Nigel Farage e herdeiro político do movimento que impulsionou o Brexit. Os Verdes também ampliam espaço eleitoral, enquanto conservadores e trabalhistas enfrentam dificuldades para recuperar o apoio perdido.

A sucessão de Starmer ocorre, portanto, em um ambiente político que ainda carrega marcas profundas da decisão tomada há dez anos. O favorito para assumir o governo, Andy Burnham, herdará não apenas os desafios econômicos e sociais enfrentados pelo Reino Unido, mas também um eleitorado cada vez mais fragmentado e cético em relação às promessas dos grandes partidos.

Uma década após o referendo, o Brexit continua influenciando o debate nacional. O projeto que prometia devolver o controle aos britânicos acabou associado a um período de baixo crescimento, polarização política e frequentes trocas de liderança. A saída de Starmer reforça a percepção de que os efeitos daquela decisão ainda estão longe de ser encerrados.