O avanço das apostas esportivas online no Brasil tem gerado consequências que vão além das perdas financeiras dos jogadores. Um estudo desenvolvido pelo Hospital das Clínicas da USP estima que os gastos diretos e indiretos relacionados ao tratamento de transtornos provocados pelas bets alcançam R$ 38 bilhões. O valor é mais de quatro vezes superior aos cerca de R$ 9 bilhões arrecadados pelo governo federal em 2025 com a tributação das plataformas regulamentadas.
A pesquisa aponta que os transtornos associados ao jogo já representam um problema de saúde pública de grandes proporções. Segundo os pesquisadores, os impactos econômicos incluem despesas médicas, tratamentos especializados, afastamentos do trabalho e outras consequências decorrentes da dependência em apostas.

O tema também tem mobilizado o setor varejista brasileiro. Empresas vêm intensificando ações internas voltadas à educação financeira de funcionários diante do aumento dos relatos de dificuldades econômicas relacionadas às apostas online. A preocupação é que os prejuízos causados pelas bets comprometam o orçamento familiar, reduzam o consumo e afetem diretamente a produtividade dos trabalhadores.
Presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), Jorge Gonçalves Filho afirma que a preocupação com os efeitos das apostas tem levado entidades empresariais a defender mudanças na legislação sobre publicidade do setor.
“Ela (a bet) causa um problema muito forte em termos de saúde pública; e, para ajudar na questão da saúde pública, é preciso restringir a divulgação”, diz o dirigente.
Segundo ele, o Congresso Nacional também passou a discutir mecanismos para limitar a exposição da população às propagandas de apostas, seguindo exemplos adotados em outros países. A avaliação é que o crescimento acelerado da atividade exige medidas que reduzam os riscos associados ao jogo compulsivo.
Gonçalves Filho fundamenta sua posição nos dados do estudo realizado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Para ele, a diferença entre a arrecadação tributária obtida pelo governo e os custos gerados para a sociedade evidencia o tamanho do problema.
“Quem está pagando por isso é a sociedade. Os R$ 9 bilhões que o governo (federal) arrecadou em 2025 com as bets é na perda dos R$ 38 bilhões (gastos pelo sistema de saúde)”, compara.
Além da discussão sobre publicidade, representantes do varejo apontam que a popularização das apostas por meio dos celulares tornou mais difícil qualquer tentativa de controle da exposição dos consumidores. Diferentemente de outros produtos, cuja propaganda pode ser regulada em veículos específicos, as plataformas digitais acompanham o usuário durante todo o dia.
Na avaliação do presidente do IDV, essa característica amplia o alcance das campanhas promocionais e facilita o engajamento contínuo dos apostadores. Isso ocorre porque, por meio do celular, as empresas conseguem manter contato permanente com os usuários.