A crise diplomática entre Israel e a União Europeia ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira 18, após o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, anunciar a suspensão de todos os contatos com a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas. A decisão foi tomada depois que o governo israelense atribuiu à representante da União Europeia declarações que teriam comparado a política israelense ao regime de Apartheid que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994.
Em publicação na rede social X, Saar afirmou que não manterá relações institucionais com a diplomata até que ela esclareça ou retire as supostas declarações. “Recentemente, foi divulgado que, durante sua visita ao México, ela comparou Israel ao regime racista de Apartheid que existiu na África do Sul”, escreveu. Segundo o chanceler, a comparação representa uma “calúnia de sangue” contra Israel. “Como ministro das Relações Exteriores do Estado de Israel, não tenho outra alternativa senão romper todos os contatos até que ela se retrate da calúnia de sangue que dirigiu contra o único Estado judeu do mundo, que também é a única democracia no Oriente Médio”, acrescentou.

Kallas respondeu por meio da mesma plataforma, sem abordar diretamente a acusação. A chefe da diplomacia europeia ressaltou a importância das relações entre Israel e a União Europeia e afirmou que continua aberta ao diálogo. “Valorizo o diálogo e continuo disposta a manter conversas de forma respeitosa e construtiva”, declarou. Saar, porém, reiterou que a posição de Israel permanecerá inalterada enquanto ela não esclarecer se utilizou ou não o termo “apartheid” em referência ao país.
O episódio ocorre em um momento de crescente deterioração das relações entre Israel e parte dos governos europeus. Nesta semana, Kallas informou que pretende voltar a solicitar à Comissão Europeia a elaboração de propostas para restringir ou sancionar exportações provenientes dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, medida defendida por diversos países do bloco. Os assentamentos são considerados ilegais pelo direito internacional e frequentemente estão no centro das divergências entre Bruxelas e o governo israelense.
A diplomata também revelou que alguns países da União Europeia defenderam a aplicação de sanções contra o ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, uma das principais figuras da ala nacionalista e de extrema direita do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A proposta, no entanto, não avançou por falta de unanimidade entre os 27 Estados-membros, requisito necessário para a adoção de sanções pelo bloco.
Ben Gvir esteve recentemente no centro de uma controvérsia internacional após a divulgação de imagens envolvendo militantes da chamada Flotilha para Gaza. O episódio levou países como França e Irlanda a adotarem restrições contra o ministro no fim de maio, ampliando o isolamento diplomático de integrantes do governo israelense em algumas capitais europeias.
A relação entre Israel e a União Europeia vem se tornando mais complexa desde o início da guerra na Faixa de Gaza, desencadeada pelo ataque do grupo Hamas ao território israelense em outubro de 2023. Desde então, o conflito provocou sucessivos atritos diplomáticos relacionados à condução das operações militares israelenses em Gaza, à situação humanitária no enclave palestino e ao aumento da violência envolvendo colonos israelenses e palestinos na Cisjordânia.
O rompimento de contatos entre Saar e Kallas representa mais um sinal das dificuldades enfrentadas por Israel na manutenção de interlocução com parte dos parceiros europeus. Ao mesmo tempo, evidencia as divisões internas da União Europeia sobre a resposta ao conflito no Oriente Médio, tema que segue mobilizando governos, organismos multilaterais e atores diplomáticos em meio à ausência de perspectivas concretas para um cessar-fogo duradouro na região.