BUSCAR
BUSCAR
Banco Master

Negócios na Bahia podem ampliar investigação sobre Banco Master

Operação Compliance Zero apura atuação de empresas ligadas a ex-sócio de Daniel Vorcaro e pode expandir investigações para além da Bahia
Por O Correio de Hoje
19/06/2026 | 14:49

As buscas e apreensões realizadas pela Polícia Federal na 9ª fase da Operação Compliance Zero podem abrir uma nova frente de investigação sobre as conexões políticas do Banco Master em diversos estados brasileiros, extrapolando o foco inicial concentrado na Bahia. A avaliação decorre do material recolhido nesta quinta-feira 18, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, em empresas ligadas ao empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no banco.

Os mandados alcançaram a Terra Firme da Bahia Ltda e a PKL One Participações, integrantes do grupo empresarial comandado por Lima. A expectativa dos investigadores é que os documentos apreendidos ajudem a esclarecer a atuação dessas empresas nas relações estabelecidas entre o setor público e o privado durante a expansão dos negócios do Banco Master.

capa portal 2026 06 19T144550.007
Senador Jaques Wagner (PT-BA) - Foto: Luiz Silveira / STF | Ministro do STF André Mendonça - Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Entre as empresas investigadas está a PKL One, proprietária do Credcesta, produto voltado a servidores públicos que reúne benefícios e serviços financeiros, incluindo operações de crédito consignado. Conforme o balanço financeiro mais recente do Banco Master, referente a 2024, o Credcesta já estava presente em 24 estados e em 176 municípios brasileiros, o que pode ampliar o alcance das apurações para além do território baiano.

Embora a investigação tenha se concentrado até agora principalmente na atuação de Daniel Vorcaro, executivos do mercado financeiro ouvidos pela Folha de S.Paulo, sob condição de anonimato, afirmaram que o grupo Terra Firme também exercia papel relevante na aproximação entre agentes públicos e interesses privados. Segundo esses relatos, Augusto Lima acompanhava pessoalmente a expansão do Credcesta e mantinha interlocução direta com governos estaduais e administrações municipais durante o crescimento das operações.

No despacho que autorizou as buscas na Terra Firme, André Mendonça citou informações segundo as quais uma secretária da empresa teria enviado fotografias de presentes de alto valor destinados ao senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. Já em relação à PKL One, o ministro considerou indícios de que a empresa realizou uma transferência de R$ 3,5 milhões para a BN Financeira, companhia criada em 2021 e que tem entre seus sócios Bonnie Toaldo Bonilha, esposa do enteado de Jaques Wagner.

As empresas já haviam aparecido em diferentes momentos das investigações envolvendo o Banco Master. Nas etapas iniciais da apuração, a Polícia Federal chegou ao empresário Augusto Lima por meio da Terra Firme, após identificar que associações de servidores da Bahia, apontadas como origem de carteiras supostamente falsas de crédito consignado posteriormente repassadas pelo Master ao Banco de Brasília (BRB), informaram à Receita Federal o telefone da empresa e o endereço eletrônico “contabilidade@grupoterrafirme.com.br” como contato.

Levantamento recente divulgado pela Folha também apontou que a Terra Firme da Bahia Ltda foi a segunda empresa que mais recebeu recursos do Banco Master em pagamentos classificados como prestação de serviços entre 2022 e 2025, totalizando R$ 186 milhões. Uma filial do mesmo grupo aparece na décima colocação do ranking, com transferências próximas de R$ 74 milhões no período analisado.

O conglomerado empresarial inclui ainda o Instituto Terra Firme, organização não governamental presidida por Flávia Lima, conhecida como Flávia Arruda, atual esposa de Augusto Lima, ex-deputada federal e ex-ministra do governo Jair Bolsonaro.

Outro alvo da operação foi a executiva Andréa Lima Novaes, prima de Augusto Lima e apontada como elo entre a Terra Firme e a PKL One. Conforme reportagem da Folha, ela representa formalmente o Credcesta desde sua criação, em 2018, e também ocupa posição de destaque na estrutura societária da Terra Firme.

Em nota, os advogados Pedro Ivo Velloso, Eduardo Toledo e Sebastián Mello, que representam Augusto Lima, afirmaram que o empresário permanece à disposição das autoridades há cerca de seis meses para prestar esclarecimentos e classificaram as diligências realizadas pela Polícia Federal como “desnecessárias”.

Segundo a defesa, “as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos”. Os advogados acrescentam que “Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.