BUSCAR
BUSCAR
Saúde animal

Barulho de fogos de artifício pode causar danos e levar até à morte de cães e gatos

Veterinária alerta que explosões podem provocar pânico, convulsões, fugas, agravamento de doenças cardíacas e até morte de cães e gatos mais vulneráveis
Helliny França
13/06/2026 | 05:47

Festas juninas e Copa do Mundo, celebradas agora em junho, são sinônimo de comemorações, festas, reuniões familiares, mas também de preocupação para tutores de pets que sofrem com o barulho de fogos de artifício. O ruído pode desencadear uma série de problemas na saúde dos animais, inclusive causar a morte dos que já possuem alguma comorbidade.

A médica veterinária Tabita Freire pontua que cães e gatos possuem uma audição extremamente sensível que faz com que barulhos intensos se tornem motivo de sofrimento. “Em cães, vamos dizer assim, a audição é uma média duas vezes mais aguçada do que a nossa. Em gato, ainda é pior, porque é cerca de quatro a cinco vezes mais”, afirma ela, em entrevista ao AGORA RN.

Animal fogos
Bichinhos sofrem com a explosão de fogos de artifício com estampido em ocasiões como festas juninas e Copa do Mundo - Foto: Reprodução

Outro fator que colabora para a reação do animal é o fato de o barulho, que muitas vezes é ensurdecedor para eles, acontecer de forma repentina (diferentemente dos humanos, eles não conseguem prever quando as explosões poderão ocorrer), causando ainda mais ansiedade e medo no pet. Além disso, o clarão dos fogos também colabora para o cenário de desespero do animal.

“Aquela claridade repentina também assusta, porque eles não entendem o que está acontecendo, não se preparam para aquilo. Simplesmente surge”, explica.

Essa sensibilidade pode estar associada também a fatores genéticos, de acordo com a médica. Ela explica que alguns pets têm uma predisposição a certas fobias e ansiedades. O risco de fugas é uma das maiores preocupações dos especialistas, na rua, os animais correm o risco de atropelamento.

“Eles pulam muro, na hora do desespero, eles rasgam tela, tentam fugir por onde tiver uma via de escape, sejam janelas ou portas. Se estiverem presos, eles podem se enforcar na própria coleira. O risco de morte é mais comum por atropelamento na hora da fuga e animais que são idosos e cardiopatas”, disse.

O barulho dos fogos de artifício também pode ocasionar crises de pânico, taquicardia, apneia, salivação excessiva e descontrole da bexiga. A médica alerta que o quadro pode evoluir para convulsões. Ela pondera, no entanto, que essa complicação é mais comum em animais idosos ou que já são epilépticos.

“Tem a questão dos traumas que aquele momento em que eles entram em desespero pode desencadear. Eles podem se machucar, pode haver fratura, laceração de pele, queda de altura… Enfim, os riscos são muitos”, explicou.

Veterinária
Veterinária Tabita Freire dá orientações – Foto: Reprodução

Lei descumprida

Por causa do efeito dos fogos em animais e também em humanos autistas e idosos, desde outubro de 2024, Natal tem uma norma — a Lei Municipal nº 783/2024 — que proíbe o manuseio, a comercialização, a queima e a soltura de fogos de artifício com estampido, permitindo apenas fogos com efeito visual e sem barulho.

A lei prevê multas ao infrator, que variam de 50% a 100% do salário mínimo, dobradas em caso de reincidência. Apesar da norma, a fiscalização e a conscientização da população seguem como gargalos na aplicação prática desta proibição.

Nesta semana, o Procon Natal realizou uma operação para fiscalizar e orientar comerciantes sobre essa e outras regras relacionadas a fogos de artifício. A ação contou com o apoio da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e das secretarias municipais de Serviços Urbanos (Semsur) e Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb).

Durante a fiscalização nas zonas Norte e Sul da capital, dezenas de produtos com prazo de validade vencido foram apreendidos e os responsáveis autuados, com o material sendo encaminhado para descarte adequado.

O que fazer?

Para minimizar o sofrimento dos animais, o caminho é principalmente a prevenção. A médica aconselha a preparar o ambiente para essas ocasiões: fechando portas e janelas, deixar a TV ligada no volume mais alto para abafar o ruído, além de preparar um local mais escondido para o pet se acomodar. Segundo ela, as medidas fazem com que o animal se acostume aos poucos e não se atente ao barulho externo. Também é importante manter a rotina do animal, e se possível realizar o passeio dos cães antes do horário dos jogos.

“Em relação ao momento exato dos fogos, é melhor agir naturalmente, manter a calma, deixá-lo se aproximar, não deixar o animalzinho amarrado, e não forçar o contato. A gente, no instinto protetor, quer pegar, botar no colo. Não, não faz isso. Deixa que ele venha até você”, disse a médica veterinária.

De acordo com ela, quando o animal está assustado, é importante que o tutor fique por perto e demostre que está presente caso o pet queira se aproximar. Filhotes e idosos são mais susceptíveis a sofrer com ruídos altos. A médica explica que os filhotes sofrem por terem um sistema nervoso imaturo o que dificulta o controle, gerando pânico e ansiedade com mais facilidade. Já os idosos enfrentam dificuldades por já possuírem comorbidades.

“O idoso tem algumas comorbidades, principalmente cardiopatias. Alguns deles já têm o que a gente chama de disfunção cognitiva, que seria semelhante ao Alzheimer humano. São pacientes que podem não ser cardiopatas, mas são hipertensos, renais e mais suscetíveis a agravar suas patologias já preexistentes por causa do momento”, acrescenta.

Tabita relata que já atendeu pacientes com complicações sérias em decorrência do barulho provocado por fogos de artifícios, e que já se prepara para receber esses casos sempre que há jogo da seleção brasileira de futebol, como neste sábado 13, na estreia na Copa do Mundo Fifa. Os casos vão de convulsões, edema pulmonar, arritmias graves até ruptura de traqueia.

Uma opção para melhorar o desconforto do pet é fazer o uso de medicamentos de forma preventiva. É indicado para aqueles animais que apresentam essas reações de forma recorrente, que já sofreram acidente, que costumam a fugir. No entanto, a administração de medicamentos deve ser orientada por um veterinário.

“O tutor pode e deve conversar com o seu veterinário e pedir para medicar o animalzinho previamente, dias antes de começar e dias depois de terminar”, explicou.

Ela pontua que, no caso dos gatos, é importante uma atenção especial, já que eles não costumam a se comportar de uma forma expansiva. A médica explica que, quando assustados, os felinos tendem a ficar mais quietos do que o normal, com a pupila dilatada, mais agressivos mesmo com pessoas próximas, além de se esconderem em lugares incomuns.

“Se o animal é acostumado a ficar isolado e de repente começa a ficar muito próximo, muito grudado, pode ser um sinal inicial. Ou o contrário, se ele é muito apegado, muito coladinho e de repente se afasta, também pode ser um indício”, disse.

Em caso de cães, é muito comum apresentar tremores, orelhas abaixadas, ficar com o rabo entre as pernas, procurar lugares escondidos e ficar andando de um lado para o outro sem conseguir relaxar. Alguns sinais, no entanto, devem deixar o tutor mais alerta.

“Se o animal começar a ficar mais ofegante, a arranhar portas e janelas tentando fugir, os tremores ficarem mais intensos. No caso dos cães, começam a latir desesperadamente. E os gatos dão aqueles miados, que parecem uivos desesperados, e começam a salivar muito”, explicou Tabita Freire.

O tutor deve procurar uma urgência hospitalar nos casos em que o animal fica com a língua roxa, com dificuldade para respirar, perder as forças ou apresentar desorientação.

“Convulsão de qualquer espécie já é para correr para o hospital. Convulsão não espera em casa. Mas se perceber que ele está ficando fraco, que ele não está respondendo mais aos seus comandos, que ele está estranhando o ambiente, corra com ele para o hospital”, alerta.