A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história em número de seleções, partidas e alcance comercial. Mas, para além da expansão esportiva, o torneio também representa a consolidação de uma transformação política dentro da Fifa. Embora Canadá e México compartilhem a organização, os Estados Unidos concentram cerca de 75% dos jogos e assumem o protagonismo de um evento que se tornou símbolo da crescente influência americana sobre a principal entidade do futebol mundial.
A escolha da América do Norte como sede do torneio não pode ser dissociada das mudanças ocorridas na Fifa ao longo da última década. Em 2010, quando os dirigentes da entidade votaram para definir os anfitriões das Copas de 2018 e 2022, a expectativa predominante era de que os Estados Unidos recebessem o Mundial que acabou sendo realizado no Catar. O resultado surpreendeu dirigentes, governos e observadores do futebol internacional.

Nos anos seguintes, investigações conduzidas por autoridades americanas mudaram o cenário político da entidade. Em 2015, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI desencadearam uma ampla operação contra dirigentes ligados à Fifa, sob a alegação de que esquemas de corrupção utilizavam o sistema financeiro americano. A ofensiva resultou em prisões, processos e no enfraquecimento de lideranças históricas da organização.
A crise culminou na saída de Joseph Blatter da presidência da Fifa e abriu caminho para a ascensão de Gianni Infantino. O dirigente suíço assumiu prometendo reformas administrativas e maior transparência, mas rapidamente demonstrou habilidade para equilibrar renovação institucional e manutenção das estruturas de poder que historicamente sustentaram a entidade.
Uma das prioridades do novo presidente foi reconstruir a relação com os Estados Unidos. A estratégia envolvia não apenas recuperar a confiança do mercado mais poderoso do mundo, mas também transformar o país em peça central dos planos de crescimento da Fifa. A escolha da Copa de 2026 para a América do Norte foi um dos marcos desse processo.
Ao mesmo tempo, Infantino passou a cultivar uma relação cada vez mais próxima com Donald Trump. Diferentemente de seus antecessores, o dirigente adotou uma estratégia baseada em vínculos pessoais com líderes políticos influentes. O presidente americano enxergava na Copa uma oportunidade de projeção internacional e de fortalecimento econômico, enquanto a Fifa identificava nos Estados Unidos o mercado capaz de impulsionar receitas, audiência e patrocínios.
A convergência de interesses ganhou força com a ampliação da Copa para 48 seleções. A mudança aumentou o alcance geográfico do torneio, incorporou novos mercados consumidores e ampliou significativamente o potencial de faturamento da entidade. Para Infantino, a expansão também fortaleceu sua base política dentro da Fifa ao aumentar o número de federações beneficiadas pela nova distribuição de vagas.
Outro projeto central da gestão foi a reformulação da Copa do Mundo de Clubes. Recebida inicialmente com desconfiança por parte do mercado e de segmentos do futebol europeu, a competição tornou-se uma das principais apostas comerciais da entidade. O torneio foi concebido como um produto global capaz de gerar novas receitas e ampliar a presença da Fifa além do ciclo tradicional das seleções nacionais.
O fortalecimento da relação entre Infantino e Trump, porém, também gerou questionamentos. Durante a Copa do Mundo de Clubes, o presidente americano utilizou o torneio como plataforma de visibilidade política, participando de cerimônias e eventos ligados à competição. A proximidade entre os dois líderes passou a ser observada com cautela por dirigentes, federações e especialistas em governança esportiva.
As críticas aumentaram à medida que a Fifa passou a demonstrar dificuldade para se posicionar diante de temas políticos envolvendo os Estados Unidos. Questões relacionadas a restrições migratórias, tensões diplomáticas e conflitos internacionais passaram a afetar diretamente o ambiente da Copa de 2026, especialmente diante da participação de seleções oriundas de países em atrito com Washington.
O desafio tornou-se ainda mais evidente com a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã. A presença da seleção iraniana no Mundial coloca a Fifa diante de questões diplomáticas complexas, envolvendo vistos, segurança e circulação de delegações. Ao mesmo tempo, a entidade precisa preservar o discurso de neutralidade política que historicamente orienta sua atuação institucional.
A realização da Copa de 2026 nos Estados Unidos sintetiza esse novo momento da Fifa. O torneio que nasceu como uma celebração global do futebol tornou-se também uma plataforma de projeção econômica, diplomática e geopolítica. Para Infantino, a aproximação com a maior potência econômica do planeta ajudou a expandir receitas e alcance internacional. Em contrapartida, aumentou a exposição da entidade a disputas políticas das quais, tradicionalmente, procurava manter distância.
À medida que o Mundial se aproxima, o sucesso esportivo do torneio convive com um debate mais amplo sobre o papel da Fifa em um ambiente internacional cada vez mais polarizado. O resultado dessa equação poderá influenciar não apenas o legado da Copa de 2026, mas também o futuro da governança do futebol global.