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Sustentabilidade

Brasileiro apoia agenda verde, mas hesita no consumo

Levantamento mostra aprovação às empresas sustentáveis, mas identifica barreiras relacionadas à confiança, informação e hábitos de consumo
Por O Correio de Hoje
05/06/2026 | 13:42

Os brasileiros demonstram apoio crescente às práticas sustentáveis e à agenda ambiental, mas ainda encontram dificuldades para transformar esse discurso em hábitos concretos de consumo. Pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que, embora a maioria da população veja com bons olhos empresas comprometidas com a sustentabilidade, persiste uma resistência significativa à compra de produtos reciclados e à adoção de comportamentos ligados à economia circular.

O levantamento, apresentado durante o evento “Liderança Empresarial pelo Futuro do Clima | COP31”, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), aponta um descompasso entre a consciência ambiental e as escolhas feitas no cotidiano pelos consumidores.

roupas usadas
Utilização de roupas por mais tempo - arte: sistema Fiern

Segundo a pesquisa, 72% dos brasileiros avaliam positivamente empresas que investem em sustentabilidade. No entanto, 43% afirmam resistir à compra de produtos reciclados independentemente do preço. Os principais motivos apontados são a preferência por itens novos, citada por 34% dos entrevistados, e dúvidas sobre a durabilidade e a qualidade dos produtos reciclados, mencionadas por 30%.

O resultado evidencia um desafio para a expansão da chamada economia circular, modelo que busca reduzir a extração de recursos naturais por meio da reutilização, do reparo, da remanufatura e da reciclagem de materiais, ampliando o ciclo de vida dos produtos.

Na prática, isso significa que muitos consumidores apoiam iniciativas ambientais, mas ainda demonstram insegurança quando precisam optar por um produto fabricado a partir de materiais reaproveitados. O comportamento aparece em situações como a escolha entre um item convencional e outro produzido com matérias-primas recicladas ou na desconfiança em relação a embalagens biodegradáveis.

A pesquisa foi realizada pelo instituto Nexus, a pedido da CNI, entre os dias 11 e 13 de fevereiro. Foram entrevistadas presencialmente 2.019 pessoas em todas as regiões do país.

Para o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, os resultados mostram que a consolidação da economia circular depende não apenas da oferta de produtos sustentáveis, mas também da construção de confiança por parte dos consumidores.

“Existe interesse da sociedade por práticas mais sustentáveis, mas ainda há barreiras relacionadas à informação, percepção de qualidade e acesso. Isso reforça a necessidade de ampliarmos o debate sobre economia circular e criarmos condições para que escolhas mais sustentáveis façam parte do cotidiano dos brasileiros”, afirma.

O levantamento também mostra que a compreensão sobre os impactos ambientais das decisões de consumo ainda é limitada. Mais da metade dos entrevistados, equivalente a 56%, afirmou não perceber relação direta entre seus hábitos de compra e as emissões de gases de efeito estufa.

O desconhecimento sobre o próprio conceito de economia circular também chama atenção. Apenas 13% dos brasileiros afirmam conhecer o tema de forma aprofundada, indicando que a agenda ainda não foi plenamente incorporada ao debate público.

Outro dado relevante diz respeito à percepção sobre responsabilidades ambientais. Para 60% dos entrevistados, cabe principalmente às prefeituras garantir que produtos e resíduos não contaminem o meio ambiente. Apenas 14% atribuem essa responsabilidade à indústria, enquanto 12% apontam o governo federal.

Os resultados sugerem que boa parte da população ainda associa a gestão ambiental ao poder público, sem necessariamente reconhecer o papel compartilhado entre consumidores, empresas e governos na construção de modelos mais sustentáveis de produção e consumo.

A pesquisa também identificou baixa adesão à logística reversa, mecanismo que prevê o retorno de produtos pós-consumo aos fabricantes ou pontos de coleta para reciclagem ou descarte adequado.

Segundo o levantamento, 84% dos brasileiros não costumam devolver itens como pilhas, baterias, eletroeletrônicos e outros resíduos aos seus pontos de origem. Entre os motivos apresentados, 33% citaram falta de informação sobre como realizar o descarte correto, enquanto 24% apontaram a distância dos pontos de coleta.

Em contrapartida, algumas práticas associadas à economia circular já fazem parte da rotina dos consumidores. O estudo mostra que 58% dos brasileiros afirmam consertar produtos antes de substituí-los por novos. Entretanto, apenas 10% relacionam essa atitude à preocupação ambiental.

O dado sugere que, em muitos casos, a decisão de reparar um item está mais associada a fatores econômicos do que propriamente à redução de impactos ambientais.

Para Bomtempo, os resultados indicam a necessidade de ampliar ações de conscientização e fortalecer políticas públicas voltadas à circularidade.

“Temos espaço para ampliar a conscientização da sociedade sobre circularidade e fortalecer políticas públicas capazes de incentivar modelos mais sustentáveis de produção e consumo. A economia circular depende de uma transformação sistêmica, que envolve informação, infraestrutura, ambiente regulatório e engajamento de toda a cadeia produtiva”, destaca.

Nesse contexto, a CNI reforça a defesa da aprovação do Projeto de Lei nº 1.874/2022, que institui a Política Nacional de Economia Circular (PNEC). A entidade avalia que a proposta pode criar um ambiente mais favorável para investimentos, estimular a inovação industrial e ampliar a competitividade das empresas brasileiras em um cenário global cada vez mais orientado por critérios ambientais.

A discussão ganha relevância em um momento em que governos, empresas e investidores ampliam a pressão por metas de descarbonização e uso mais eficiente dos recursos naturais. Os resultados da pesquisa mostram que existe receptividade da população à agenda sustentável, mas apontam que a consolidação da economia circular no Brasil ainda dependerá de avanços em educação ambiental, infraestrutura de coleta, incentivos econômicos e fortalecimento da confiança do consumidor nos produtos reciclados e reaproveitados.