A nova encíclica do Papa Leão XIV, intitulada “Magnifica Humanitas”, tem provocado repercussão internacional ao colocar a inteligência artificial no centro das discussões sobre dignidade humana, educação e desenvolvimento social. O tema foi debatido nesta segunda-feira 1º pelo padre Matias Soares, capelão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador da Comissão de Cultura e Educação da Arquidiocese de Natal, durante entrevista à rádio 94 FM.
Segundo o sacerdote, o documento papal já mobiliza chefes de Estado, universidades e profissionais de diferentes áreas. “Esse texto do Papa Leão, que é a sua primeira encíclica, realmente teve, e está tendo ainda, uma repercussão tremenda, desde chefes de Estado a setores universitários, profissionais liberais, que se voltam para fazer a leitura desse texto e o aprofundamento desse texto, porque traz para o centro das discussões uma temática central do contemporâneo, que é a da inteligência artificial”.

Padre Matias destacou que o pontífice classifica a inteligência artificial como uma “Quarta Revolução”, após a Revolução Industrial e outras mudanças paradigmáticas no desenvolvimento das sociedades ocidentais. “O Papa Leão diz que a inteligência artificial traz para a gente essa Quarta Revolução”, disse.
O sacerdote relacionou a publicação da encíclica ao legado do Papa Leão XIII, autor da encíclica “Rerum Novarum”, publicada em 15 de maio de 1891 e considerada um marco da doutrina social da Igreja. “São 135 anos depois que o Papa Leão agora lança esse texto não só para a vida da Igreja, mas para todos os homens e mulheres de boa vontade”, afirmou.
Padre Matias explicou que o documento coloca a dignidade humana como eixo central do debate sobre inteligência artificial. O texto utiliza as imagens bíblicas da Torre de Babel e da Jerusalém para refletir sobre os rumos da humanidade contemporânea.
“A Torre de Babel sinaliza uma sociedade, uma humanidade que dispensa elementos objetivos, dispensa a revelação de Deus, dispensa às vezes até o próprio Deus, mas também dispensa o outro, quando através da violência física, através da violência verbal, através dos desrespeitos, das guerras, a gente gera uma civilização que não é a civilização do amor”, afirmou.
Ele ressaltou que o Papa Leão XIV não condena a inteligência artificial, mas chama atenção para o uso dado à ferramenta. “Primeiro, o Papa não sataniza a inteligência artificial. Isso é muito importante. É um princípio que a gente precisa ter muito presente”.
Segundo o padre, a preocupação do Vaticano envolve os impactos éticos, econômicos e sociais da tecnologia. “Quem é que tem o capital dessas novas ferramentas? São as grandes empresas. De que modo isso vai ser um patrimônio de poucos? Porque quem tem conhecimento tem poder”, afirmou.
Padre Matias também mencionou casos recentes envolvendo manipulação de imagens por inteligência artificial. “Hoje você cria qualquer fantasia, qualquer coisa na IA. Despia uma pessoa. Eu vi esses dias, acho que foi na Tailândia ou na China, as mulheres postando a foto de uma jovem, ela despida, criada pela IA. Isso está acontecendo”, relatou.
O sacerdote também falou sobre o pacto educativo global proposto pelo Papa Francisco em 2019 e que vem sendo discutido pela Arquidiocese de Natal em parceria com instituições de ensino. O tema será debatido nesta terça-feira 2 em Mossoró, durante simpósio promovido pela Igreja Católica. Ele explicou que a iniciativa ganhou força no RN a partir da Campanha da Fraternidade. “É impressionante como essa geração está vivendo num mundo paralelo. A inteligência artificial, as músicas, a linguagem, o estilo de vida”.