A violência contra a mulher é considerada o crime mais grave do país pela maioria dos brasileiros, segundo pesquisa inédita do instituto Datafolha realizada em parceria com o Movimento Mulher 360. Apesar disso, comportamentos relacionados à violência psicológica, patrimonial e ao controle exercido dentro dos relacionamentos continuam sendo relativizados por uma parcela significativa da população.
O levantamento evidencia uma contradição na percepção dos brasileiros sobre a violência de gênero. Enquanto agressões físicas, ameaças e estupros são amplamente reconhecidos como formas de violência, atitudes que frequentemente antecedem esses crimes ainda são vistas por muitos como comportamentos aceitáveis ou que não configuram agressão.

Quando questionados sobre qual é a violência mais grave enfrentada pelo Brasil atualmente, 61% dos entrevistados apontaram a violência contra a mulher. O índice supera com ampla margem outros crimes frequentemente associados à insegurança pública. O tráfico de drogas foi citado por 16% dos participantes, enquanto assaltos à mão armada nas ruas apareceram com 10% das respostas. Invasões e roubos a residências foram mencionados por 2%.
Para a diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, os resultados demonstram avanços na percepção da população sobre a gravidade do problema, mas também revelam dificuldades no reconhecimento de comportamentos que sustentam ciclos de violência.
“A população relativiza comportamentos que sustentam a violência de gênero. Raramente o crime começa com uma agressão física. Sem o reconhecimento disso, a prevenção pode chegar tarde para a mulher violentada”, afirmou.
Segundo ela, as etapas anteriores à violência física são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave.
A pesquisa mostra que 45% dos brasileiros consideram que impedir uma mulher de sair sozinha para uma comemoração não é necessariamente um ato violento. Percentual semelhante foi registrado entre aqueles que não identificam como violência situações em que um parceiro controla as amizades da companheira.
A violência patrimonial também enfrenta resistência quanto ao reconhecimento social. Mesmo sendo prevista pela Lei Maria da Penha, 42% dos entrevistados afirmaram que controlar o salário da esposa não é necessariamente uma forma de agressão.
Os resultados indicam que parte significativa da população ainda não associa práticas de controle financeiro e restrição da liberdade individual às formas de violência previstas na legislação brasileira.
O cenário muda quando os entrevistados analisam situações de agressão mais explícita. A pesquisa aponta que 94% dos brasileiros consideram violento um homem humilhar sua companheira em público. Já 95% classificam como violência o fato de um marido forçar relações sexuais com a esposa.
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a persistência da culpabilização das vítimas. Segundo o levantamento, 61% dos brasileiros concordam que muitos casos de agressão contra mulheres são consequência de escolhas equivocadas feitas durante a seleção de um parceiro amoroso.
Essa percepção aparece tanto entre homens quanto entre mulheres. Entre os entrevistados do sexo masculino, 65% compartilham essa visão. Entre as mulheres, o percentual chega a 57%.
Para o Movimento Mulher 360, esse entendimento contribui para o isolamento das vítimas e dificulta a busca por ajuda. A avaliação da entidade é que a responsabilização da mulher pela violência sofrida fortalece sentimentos de culpa, vergonha e medo, favorecendo a permanência em relacionamentos abusivos e reduzindo as denúncias.
Dados do próprio levantamento mostram que 37% das mulheres que sofreram formas mais graves de violência ao longo do último ano não tomaram qualquer atitude após o episódio.
“A culpabilização da vítima segue estrutural e deriva da cultura patriarcal. A sociedade tem o papel de conscientizar o que é uma relação de amor e carinho”, afirmou Margareth Goldenberg.
A pesquisa também revela um cenário de desconfiança em relação à capacidade das instituições de proteger mulheres em situação de violência. Apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las. Entre os homens, esse índice alcança 31%.
Os dados indicam ainda diferenças importantes na percepção sobre os mecanismos de proteção às mulheres e reforçam, segundo os pesquisadores, a necessidade de ampliar ações de conscientização sobre formas de violência que nem sempre deixam marcas físicas, mas que podem representar o início de ciclos de agressão mais graves.