A crise política provocada pela divulgação de mensagens e áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro reduziu o espaço para acordos com partidos do Centrão e aumentou, dentro do PL, a percepção de que a chapa presidencial poderá ser formada exclusivamente por integrantes da legenda.
Nos bastidores, a expectativa inicial era de que a federação entre União Brasil e PP ocupasse a vaga de vice na composição encabeçada por Flávio. Dirigentes das duas siglas, porém, passaram a considerar um eventual apoio ao senador cada vez mais distante após a repercussão do chamado caso Master.

Antes do desgaste, interlocutores ligados ao presidente do PP, Ciro Nogueira, e ao presidente do União Brasil, Antonio Rueda, mantinham conversas frequentes com aliados de Flávio sobre alianças eleitorais e possíveis nomes para compor a chapa presidencial.
A relação esfriou depois que o site Intercept divulgou conversas e gravações em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando recursos de Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A repercussão atingiu diretamente o pré-candidato do PL e também ampliou a pressão sobre lideranças do Centrão que possuem proximidade com o empresário.
Segundo relatos de integrantes da federação União-PP, há receio de que novos episódios relacionados ao caso venham a público e acabem contaminando a estratégia eleitoral dos partidos para 2026. O foco das siglas é ampliar bancadas na Câmara e no Senado, e dirigentes avaliam que uma associação mais direta à candidatura de Flávio pode dificultar esse objetivo.
Além disso, líderes das duas legendas também mantêm relações políticas e empresariais com Vorcaro, o que alimenta o temor de desgaste adicional. Nos bastidores, aliados reclamam da falta de clareza sobre o alcance das investigações e do potencial de novas revelações envolvendo o senador do PL.
O distanciamento, segundo integrantes dos partidos, não estaria relacionado diretamente ao desempenho de Flávio nas pesquisas eleitorais. O desconforto maior envolve a percepção de que o senador não teria atuado para reduzir o desgaste sofrido por aliados atingidos indiretamente pela crise do Banco Master.
Entre eles está o presidente do PP, Ciro Nogueira, alvo recente de uma operação da Polícia Federal que investiga suspeitas de pagamento de propina — acusações que o senador nega. De acordo com relatos, Ciro demonstrou irritação com a postura de Flávio durante o episódio, o que acabou influenciando o afastamento da federação em relação ao projeto presidencial do PL.
Aliados afirmam que Flávio chegou a procurar Ciro Nogueira por telefone para tentar reduzir a tensão, mas não houve avanço na tentativa de reaproximação.
Antes do agravamento da crise, o PP discutia alguns nomes para ocupar a vice-presidência na chapa. Entre os cotados estavam a senadora Tereza Cristina, que já demonstrava resistência à composição antes mesmo da polêmica envolvendo Vorcaro, e a deputada Simone Marquetto.
Com as negociações enfraquecidas, o PL passou a concentrar as discussões internamente. Até o momento, não existe consenso sobre um nome para a vice, embora integrantes da pré-campanha defendam que a vaga seja ocupada por uma mulher.
A vereadora Priscila Costa, pré-candidata ao Senado pelo PL no Ceará, passou a ser mencionada nas conversas. A eventual escolha também serviria para acomodar disputas internas no partido no estado, onde Priscila concorre politicamente com o deputado estadual Alcides Fernandes pela indicação ao Senado.
Priscila tem apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, enquanto Alcides Fernandes — pai do deputado federal André Fernandes — mantém interlocução mais próxima com Flávio Bolsonaro.
Michelle também chegou a ser citada como possibilidade para a vice-presidência. Integrantes do PL, contudo, consideram o cenário improvável. A avaliação é de que a ex-primeira-dama mantém distância política de Flávio e concentra seus esforços eleitorais no Distrito Federal, onde deve disputar uma vaga ao Senado em 2026.