Médicos alertam que ignorar frequentemente a vontade de fazer xixi ou cocô pode trazer consequências para a saúde e alterar o funcionamento natural do organismo. Embora muitas pessoas adiem a ida ao banheiro por compromissos, vergonha ou falta de estrutura adequada, especialistas afirmam que o corpo envia sinais importantes que não devem ser ignorados repetidamente.
Segundo profissionais das áreas de urologia e coloproctologia, a necessidade de urinar ou evacuar funciona como um mecanismo de comunicação entre cérebro, bexiga e intestino. Quando esse reflexo é constantemente reprimido, o organismo pode passar a responder de forma inadequada, aumentando riscos de infecção urinária, prisão de ventre, hemorroidas, fissuras anais e até danos aos rins em casos mais graves.

O urologista Cassio Riccetto, coordenador da disciplina de disfunção miccional da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), explica que o cérebro aprende a se adaptar quando a pessoa cria o hábito de ignorar os sinais do corpo.
“Se você for inibindo essa percepção, aos poucos o cérebro vai se acostumar. Ele entende que não vai mais avisar que a bexiga está cheia”, afirma Riccetto. Ele explica que a bexiga e o reto passam a funcionar de maneira inadequada quando esse reflexo é repetidamente reprimido.
“Quando inibimos esse reflexo muito bem coordenado, entramos num ciclo vicioso, que pode causar problemas futuros relacionados à evacuação”, completa Maria Julia Segantini, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBC).
De acordo com Riccetto, o funcionamento normal do organismo envolve urinar entre seis e sete vezes por dia. A frequência está relacionada à capacidade da bexiga adulta, que comporta entre 300 ml e 600 ml de urina. O cérebro costuma emitir o sinal de alerta quando o órgão ultrapassa aproximadamente 400 ml de líquido acumulado.
Quando a urina permanece armazenada por muito tempo, a bexiga pode sofrer distensão excessiva, além de aumentar o risco de infecções urinárias. “Acumular xixi pode causar uma hiperdistensão da bexiga”, explica Riccetto. Segundo o especialista, em situações extremas, o problema pode provocar danos renais devido ao retorno da urina para os rins.
Os impactos também atingem o intestino. Especialistas afirmam que segurar as fezes por longos períodos favorece o endurecimento do bolo fecal, dificultando a evacuação e aumentando o risco de lesões. “No caso do cocô, segurar a vontade pode aumentar as chances de doenças no ânus, como hemorroida. Pode ainda causar fissura, abscesso e até fístulas anais”, explica Maria Julia Segantini.
A médica ressalta ainda que o intestino continua absorvendo água das fezes enquanto elas permanecem retidas no reto, tornando a evacuação mais difícil e dolorosa. “Tem que fazer cocô na hora que ele pede para sair”, reforça Segantini.
Outro problema apontado pelos especialistas é que o acúmulo de fezes no reto também pode favorecer infecções urinárias, especialmente entre mulheres, devido à proximidade anatômica entre uretra e canal anal. Além disso, quanto mais tempo a pessoa adia a ida ao banheiro, maior tende a ser a dificuldade para evacuar depois.
Os médicos destacam que hidratação adequada é fundamental tanto para o funcionamento do intestino quanto da bexiga. Segundo Riccetto, beber pouca água reduz a produção de urina, fazendo com que ela permaneça mais tempo acumulada na bexiga e aumentando riscos de infecção.
Já no intestino, a água ajuda a manter as fezes mais macias e facilita a evacuação. Embora reconheçam que nem sempre é possível interromper atividades imediatamente para ir ao banheiro, especialistas recomendam respeitar o máximo possível os sinais do organismo.