A crescente cultura da produtividade constante e da busca por desempenho em todas as áreas da vida tem provocado impactos diretos na saúde mental das mulheres brasileiras. Pressionadas a equilibrar carreira, cuidados domésticos, responsabilidades familiares e padrões de comportamento impostos socialmente, elas já representam a maioria dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais no país.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que 546,2 mil brasileiros precisaram se afastar do trabalho em 2025 devido a problemas relacionados à saúde mental. As mulheres correspondem a 63% desses casos.

Especialistas apontam que a combinação entre múltiplas jornadas, cobrança profissional, responsabilidades familiares e pressão social cria um cenário de sobrecarga contínua. O resultado é o aumento de quadros de ansiedade, depressão, estresse crônico e síndrome de burnout — condição associada ao esgotamento extremo provocado pelo trabalho.
A jornalista Izabella Camargo, de 45 anos, tornou-se uma das vozes mais conhecidas no Brasil sobre conscientização e prevenção do burnout após sofrer um apagão ao vivo enquanto apresentava a previsão do tempo em um telejornal da TV Globo, em 2018.
Antes de receber o diagnóstico correto, ela procurou cinco médicos diferentes. As dores de cabeça intensas e problemas intestinais eram tratados isoladamente até que um cardiologista identificou o quadro de estresse crônico. Inicialmente, Izabella não acreditou no diagnóstico. “Eu estava normalizando o anormal, algo que fazemos com muita frequência”, afirma. Ela relata que trabalhava continuamente para atingir metas e sentia necessidade de fazer mais do que os homens para conquistar reconhecimento profissional semelhante. O episódio ao vivo acabou sendo o marco do diagnóstico de síndrome de burnout.
O cenário retrata uma realidade cada vez mais comum entre mulheres, segundo especialistas em saúde mental. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a explicar parte dessa sobrecarga. Em 2022, mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto homens gastavam 11,7 horas. A diferença chega a 9,6 horas por semana, o equivalente a quase 40 horas mensais adicionais de trabalho.
Para o psiquiatra Pedro Pan, membro da ONG Ame Sua Mente, que atua na promoção de saúde mental no ambiente escolar, o modelo de produtividade imposto pelo mercado afeta mulheres de forma mais intensa.
“O mundo corporativo criou o fenômeno da produtividade, de não podermos parar de trabalhar. Só que as mulheres são afetadas de forma diferente, porque, além da sobrecarga de trabalho, elas são, na maioria dos arranjos familiares heterossexuais, responsáveis pelos cuidados da casa, em uma divisão injusta”, diz. Segundo ele, casos de adoecimento mental também têm crescido entre mulheres mais jovens. O avanço das redes sociais agravou ainda mais a sensação de insuficiência e comparação permanente.
“Elas ampliaram o sofrimento das mulheres. É como se elas dissessem que não basta mais você ser muito boa no trabalho e em casa. Agora você também precisa correr dez quilômetros às 6h. Porque correr cinco é pouco”, afirma Pan. A socióloga, psicanalista e coordenadora da pós-graduação em sociopsicologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), Marta Bergamin, avalia que a pressão estética intensifica o desgaste emocional feminino.
“Além de toda a carga do trabalho dentro e fora de casa, há o mercado de beleza, que diz que você tem que estar bonita”, afirma. Ela aponta ainda que o crescimento de casos de feminicídio e a disseminação de conteúdos misóginos nas redes sociais ampliam a sensação de vulnerabilidade entre mulheres. “Por muitos anos, fomos ensinadas a ficar em casa, cuidando do lar. Agora, estamos querendo sair, mas é perigoso”, diz.
Os relatos fazem parte da discussão apresentada na série “Sobrecarregadas”, lançada pela Folha de S.Paulo, que investiga como a ideia de “dar conta de tudo” passou a funcionar como uma métrica de sucesso feminino, mesmo diante dos impactos emocionais e físicos provocados por esse modelo.
Ao longo de seis capítulos, a série aborda diferentes dimensões da sobrecarga feminina, incluindo fatores estruturais, cobranças relacionadas a padrões estéticos e o excesso de exposição digital. Para Izabella Camargo, o enfrentamento do problema passa por uma mudança cultural mais profunda. Em palestras realizadas em diversas cidades do país, ela fala sobre o movimento “EPIs da Saúde Mental”, criado para estimular discussões sobre direito à desconexão e flexibilidade no trabalho.
“Enquanto a pessoa acreditar no discurso do ‘trabalhe enquanto eles dormem’, resultado de uma cultura que descredibiliza a pausa, ela vai achar que problemas mentais são frescura”, afirma.
Especialistas alertam que ignorar os sinais de exaustão pode agravar quadros emocionais e levar a doenças mais severas. Para Dulce Brito, gerente médica de bem-estar e saúde mental do Hospital Israelita Albert Einstein, um dos primeiros alertas costuma aparecer durante o sono. “Muitas vezes, uma mulher sobrecarregada pode até dormir oito horas por noite, mas acorda sempre cansada”, afirma.