A Andrade Gutierrez protocolou na 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte um pedido de recuperação extrajudicial (RJE) para reestruturar uma dívida de R$ 3,4 bilhões, em meio à deterioração do fluxo de caixa causada pela paralisação e adiamento de obras, alta do dólar e dos juros e dificuldades em contratos internacionais.
No processo, o conglomerado afirma que 47% de suas obras foram paralisadas ou adiadas por “fatores externos”, comprometendo a geração de caixa necessária para sustentar as operações e honrar compromissos financeiros. A companhia também relata impactos em projetos executados em Gana e na República Dominicana.

O grupo apresentou dois planos distintos de reestruturação: um voltado às dívidas das empresas no Brasil e outro direcionado aos títulos emitidos no mercado internacional. Segundo a companhia, ambos já contam com adesão de mais de 70% dos credores, percentual mínimo previsto em lei para homologação judicial do acordo.
Em nota, a Andrade Gutierrez afirmou que o processo integra uma estratégia de “reestruturação e desalavancagem” dos passivos.
“O plano de reestruturação já conta com consentimento de credores, representando mais de 70% dos créditos, possibilitando assim o fortalecimento das operações da empresa e sua capacidade de cumprir os compromissos com seus clientes”, disse a empresa.
No pedido apresentado à Justiça, o conglomerado ressalta sua trajetória de quase oito décadas na construção pesada e cita participação em obras consideradas emblemáticas da infraestrutura nacional, como a primeira linha do metrô de São Paulo, a Rodovia Castelo Branco e as hidrelétricas de Itaipu, Belo Monte e Santo Antônio.
“Tais obras contribuíram para melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas e para o desenvolvimento econômico e social do Brasil e demais países onde atuam, evidenciando a importância socioeconômica das Requerentes”, afirma a companhia no documento.
Para Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em reestruturação empresarial, a situação decorre de um choque simultâneo de liquidez operacional e financeira. Segundo ele, o principal sinal de deterioração não está apenas no tamanho da dívida, mas no percentual de obras afetadas.
“Quando quase metade da operação trava, a conta deixa de fechar rapidamente”, afirmou. “A estrutura continua custando caro, fornecedores continuam existindo, folha continua rodando, compromissos financeiros vencem, mas o caixa deixa de entrar no ritmo necessário.”
Segundo Pelozato, empresas de infraestrutura tendem a sofrer mais em cenários de pressão financeira porque operam com contratos de longo prazo, estruturas de alto custo fixo e baixa flexibilidade para reduzir despesas rapidamente.
O especialista avalia ainda que a escolha pela recuperação extrajudicial indica tentativa de preservação operacional antes de um eventual agravamento da crise.
“O mercado muitas vezes interpreta qualquer mecanismo de reestruturação como sinônimo de falência iminente, mas isso é um erro. Em muitos casos, a recuperação extrajudicial é justamente uma ferramenta de preservação antes do colapso”, disse.
Daniel Báril, sócio coordenador da área de Insolvência e Reestruturação do Silveiro Advogados, afirma que o próximo passo será a análise inicial do pedido pela Justiça e a publicação de edital para manifestação dos credores que não aderiram ao plano.
“Superada essa fase, o juiz avaliará o cumprimento dos requisitos legais — entre eles a adesão mínima de credores exigida pela lei — e, se atendidos, proferirá a sentença de homologação. É esse ato que confere eficácia vinculante ao plano, obrigando inclusive os credores dissidentes da mesma classe”, afirmou.