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Política

Cadu é positivo, mas RN ainda tem estradas ruins e saúde precária, diz Fábio Dantas

Ex-vice-governador cita estradas, hospitais, educação e geração de emprego ao criticar discurso de avanço da gestão Fátima Bezerra
Por O Correio de Hoje
20/05/2026 | 15:22

O ex-vice-governador Fábio Dantas (PSDB) afirmou que o pré-candidato ao governo Cadu Xavier (PT) “está certo” ao tentar apresentar uma visão positiva da gestão da Fátima Bezerra (PT), mas disse que esse discurso encontra limite na realidade enfrentada pela população. Em entrevista à 97 FM, Fábio afirmou que o Rio Grande do Norte ainda convive com estradas ruins, hospitais pressionados, educação de baixa qualidade, baixo desenvolvimento econômico e dificuldade para gerar emprego e renda.

A declaração foi feita quando Fábio comentou a estratégia adotada por Cadu, ex-secretário estadual da Fazenda e pré-candidato do PT ao Governo do Estado, de defender o legado da gestão Fátima. Em entrevistas recentes, Cadu tem rebatido a crítica de que o governo “só pagou a folha” e sustentado que o RN avançou em áreas como segurança, saúde, educação, infraestrutura rodoviária e desenvolvimento econômico.

Cadu Xavier
Ex-secretário da Fazenda do RN Cadu Xavier, pré-candidato ao Governo do RN - Foto: João Gilberto / ALRN

Fábio reconheceu que o pré-candidato governista cumpre um papel político ao tentar mostrar o lado positivo da administração. Para ele, o governo tem como ativo o fato de manter a folha salarial em dia e garantir o funcionamento básico da máquina pública. Mas, na avaliação do ex-vice-governador, isso não basta para afirmar que o Estado resolveu seus problemas estruturais.

“Cadu está certo quando ele quer mostrar um lado positivo. Qual o lado positivo? O de que, dentro de todas as dificuldades, dentro de todas as ausências de medidas que o Estado nunca tomou, ele está sobrevivendo pagando a folha e fazendo o básico”, disse Fábio. “Mas aí, se esse sistema tivesse certo, a população não sofreria nas estradas, não sofreria nos hospitais, não sofreria na educação de péssima qualidade. Nós não teríamos um Estado que não tem desenvolvimento econômico e que não atrai emprego e renda para o nosso povo”, completou.

Na área de infraestrutura, o governo tem números para contrapor a crítica. A gestão estadual informou ter concluído a primeira fase do programa de recuperação de rodovias, com R$ 428 milhões em investimentos e cerca de 800 quilômetros restaurados. Também lançou uma segunda etapa, com previsão de mais 664,8 quilômetros e investimento estimado em R$ 651,5 milhões.

Ainda assim, o tamanho do programa revela a dimensão do passivo rodoviário acumulado no Estado. Para Fábio, a existência de obras em andamento não elimina a percepção de que a população ainda sofre para circular por rodovias estaduais deterioradas. A crítica dele mira justamente a distância entre o discurso de avanço e a experiência concreta de quem depende das estradas para trabalhar, produzir, transportar mercadorias ou acessar serviços.

Na saúde, Fábio citou os hospitais como exemplo de área em que a narrativa governista esbarra na realidade. O caso mais simbólico é o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, maior unidade de urgência e emergência do Rio Grande do Norte. A unidade já registrou episódios de superlotação, com pacientes nos corredores, além de paralisações de terceirizados por atraso de salários e problemas em serviços essenciais.

Esses episódios dão força ao argumento de Fábio de que pagar a folha dos servidores e manter a máquina funcionando não significa entregar um serviço público satisfatório na ponta. Para o ex-vice-governador, o cidadão mede o governo menos pelo discurso fiscal e mais pela qualidade do atendimento que encontra quando precisa de hospital, estrada, escola ou oportunidade de trabalho.

A educação também entrou na crítica. O Rio Grande do Norte teve, no Ideb 2023, o pior desempenho do País no ensino médio público pela segunda vez consecutiva, segundo dados divulgados a partir do levantamento do Ministério da Educação. A nota da rede estadual foi 3,2, abaixo da média nacional, que ficou em 4,1.

Para Fábio, esse tipo de indicador enfraquece a tentativa de apresentar o Estado como exemplo de avanço estrutural. A leitura dele é que o RN continua preso a gargalos históricos, especialmente na formação de mão de obra, na produtividade e na capacidade de transformar potencial econômico em crescimento sustentável.

Na economia, o quadro é mais ambíguo. O RN registrou em 2023 crescimento de 4,2% no PIB, alcançando R$ 101,7 bilhões e tendo a maior alta do Nordeste naquele ano. O setor de serviços também apresentou desempenho positivo, com crescimento de 7,5% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, o melhor resultado entre os estados brasileiros.

Mesmo com esses dados positivos, Fábio sustenta que o Estado ainda não conseguiu criar um ciclo consistente de desenvolvimento e geração de renda. Ele afirmou que, em muitas cidades, a economia local depende fortemente do pagamento de benefícios sociais e da renda pública. Segundo o ex-vice-governador, isso revela que o RN ainda não conseguiu abrir oportunidades suficientes para tornar a população menos dependente do poder público.

“Uma das coisas que mais me assustam em todas as cidades é a gente ver que, no dia em que os auxílios saem, a economia flui nos municípios”, afirmou. Para ele, a única forma real de enfrentar a pobreza é gerar emprego e renda. “Só existe uma forma de acabar com a pobreza. É gerando emprego e renda. É progresso”, disse.

Os dados do mercado de trabalho mostram melhora, mas também reforçam a ressalva. O RN encerrou 2025 com taxa anual de desocupação de 8,1%, a menor da série histórica iniciada em 2012. Ainda assim, o índice ficou acima da média nacional, de 5,6%, e entre os mais altos do país.

A fala de Fábio não nega que existam avanços pontuais na gestão estadual. O que ele questiona é a tentativa de transformar esses avanços em uma narrativa de superação dos problemas estruturais. Para o ex-vice-governador, Cadu pode estar certo ao tentar vender o lado positivo do governo, mas terá dificuldade de convencer o eleitor de que o Estado vai bem enquanto a população ainda enfrenta estradas ruins, hospitais precários, ensino médio frágil e poucas oportunidades de emprego.