O percentual de famílias endividadas em Natal alcançou 84,6% em março de 2026, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice supera a média nacional, estimada em 70%, e coloca a capital potiguar entre os maiores níveis de comprometimento financeiro do País.
O resultado também ultrapassa o registrado em Recife, onde 80,9% das famílias declararam possuir dívidas, e se aproxima dos patamares observados no Ceará, estado em que 89% dos lares relataram contas a vencer, incluindo cartão de crédito, empréstimos pessoais, crédito consignado, prestações de veículos e financiamentos imobiliários.

Na avaliação do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD), o cenário acende um alerta para o aumento da inadimplência nos próximos meses e para os impactos sobre o consumo das famílias e a atividade econômica local.
Segundo a análise do instituto, dois fatores ajudam a explicar o avanço do endividamento em Natal. O primeiro deles é a renda média inferior à média nacional, o que leva parte das famílias a recorrer ao crédito para complementar despesas básicas e equilibrar o orçamento mensal.
Além disso, fatores como juros elevados, inflação persistente, alta informalidade no mercado de trabalho e o crescimento das apostas online mantêm pressão contínua sobre as finanças domésticas.
O IFD avalia que programas federais de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0, lançado recentemente pelo governo federal, ajudam a reduzir parte da pressão financeira sobre as famílias, mas não solucionam o problema estrutural do endividamento.
Entre os principais vetores de desequilíbrio financeiro aparece o cartão de crédito. Dados do Banco Central do Brasil indicam que os juros médios da modalidade chegam a cerca de 15% ao mês, um dos percentuais mais elevados do sistema financeiro.
O acesso facilitado ao crédito combinado ao aumento do custo de vida contribuiu para o crescimento acelerado do comprometimento da renda familiar nos últimos anos. O avanço das dívidas também reduz a capacidade de consumo e dificulta a obtenção de novos financiamentos por parte das famílias. Com parcela significativa da renda comprometida com pagamentos mensais, consumidores tendem a reduzir gastos, enquanto empresas enfrentam desaceleração nas vendas e menor capacidade de investimento.
O cenário preocupa setores ligados ao comércio e serviços, que dependem diretamente do consumo das famílias para manutenção da atividade econômica. A expectativa do mercado é de que o comportamento da inadimplência ao longo do segundo semestre seja decisivo para medir os efeitos do atual nível de endividamento sobre a economia local.