A decisão do Democracia Cristã de substituir Aldo Rebelo por Joaquim Barbosa como pré-candidato à Presidência da República desencadeou uma crise interna no partido e já provoca ameaças de contestação judicial.
Aldo Rebelo havia sido lançado oficialmente pela legenda em janeiro, em uma cerimônia na qual foi apresentado como uma alternativa da direita para a disputa presidencial. Sem representação no Congresso Nacional e sem tempo de propaganda eleitoral em rádio e televisão, o partido apostava na candidatura como forma de ganhar visibilidade no debate nacional.

Segundo interlocutores da sigla, Aldo recebeu um prazo de seis meses para demonstrar competitividade nas pesquisas de intenção de voto. O desempenho, porém, ficou abaixo do esperado.
Diante desse cenário, a direção nacional do partido, comandada pelo ex-deputado federal João Caldas, passou a apostar em Joaquim Barbosa, que se filiou ao DC em abril.
Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Barbosa ganhou projeção nacional ao relatar o processo do mensalão, escândalo de corrupção que resultou na condenação de 24 réus, entre eles o ex-ministro José Dirceu. Primeiro negro a integrar a Suprema Corte, ele permaneceu no tribunal de 2003 a 2014.
A legenda submeteu o nome de Barbosa a pesquisas qualitativas para medir sua imagem junto ao eleitorado. Segundo o publicitário Adriano Gehres, responsável pelo levantamento interno, o ex-ministro apresenta potencial para atrair votos em diferentes segmentos.
“Como não habita nenhum dos dois campos ideológicos e ao mesmo tempo tem qualidades que chamam atenção dos eleitores de ambos os lados, Joaquim Barbosa tem potencial para tirar votos da esquerda e da direita. Ele ainda toma votos dos candidatos que pontuam abaixo dos 5% e não empolgam e, o principal, conquista votos entre os indecisos”, afirmou.
Joaquim Barbosa já ensaiou disputar a Presidência em 2018, quando se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), mas desistiu poucos meses depois.
Para a disputa de 2026, ele pretende centrar o discurso em propostas de moralização do Judiciário, em meio às discussões envolvendo o caso Banco Master, e estuda defender a criação de mandatos para ministros do STF.
A mudança no comando da pré-candidatura provocou forte reação de Aldo Rebelo, que afirmou que pretende manter seu projeto presidencial.
“Candidaturas são projetos coletivos e não de grupos e interesses específicos”, escreveu em nota divulgada nas redes sociais.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Aldo afirmou que recorrerá à Justiça caso sua pré-candidatura seja retirada.
“Se houver ameaça à minha pré-candidatura, nesta hipótese, a questão será judicializada”, declarou.
A decisão também acirrou divergências internas no partido. Presidente do diretório estadual do DC em São Paulo, o ex-deputado Cândido Vaccarezza classificou Joaquim Barbosa como um nome “inapoiável”.
Segundo Vaccarezza, o ex-ministro do STF “não tem compromisso com a democracia, nem experiência política”.
As críticas se repetiram em outros diretórios. Durante convenção do partido em Roraima, o presidente estadual da legenda, Paulo César Quartiero, chamou Barbosa de “vigarista” e “traidor”. A crítica remete ao voto do então ministro do STF no julgamento sobre a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
O episódio expõe o aprofundamento das divisões internas do Democracia Cristã e indica que a definição sobre quem representará o partido na disputa presidencial poderá acabar sendo resolvida fora do campo político, nos tribunais.