O mercado financeiro brasileiro viveu uma quarta-feira de forte turbulência, pressionado pela combinação entre o avanço da inflação nos Estados Unidos e a repercussão política envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso relacionado ao Banco Master.
Ao fim do pregão, o dólar comercial subiu 2,31% e encerrou cotado a R$ 5, registrando a maior alta diária da moeda norte-americana em cinco meses. O Ibovespa caiu 1,80%, enquanto os contratos de juros futuros avançaram em toda a curva.

Segundo Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos, a notícia envolvendo Flávio Bolsonaro ampliou um movimento de aversão ao risco que já pressionava os ativos brasileiros ao longo do dia.
“Investidores temem que a notícia fortaleça a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aumente as chances de continuidade de uma política econômica vista pelo mercado como mais expansionista, baseada em aumento de gastos públicos e maior endividamento. Na avaliação dos agentes financeiros, isso pode manter os juros elevados por mais tempo”, afirmou.
Nos bastidores do mercado, o episódio passou a ser apelidado de “Flávio Day 2”, em referência ao forte estresse nos ativos registrado em dezembro do ano passado, quando o senador lançou sua pré-candidatura à Presidência da República.
Para Marcio Riauba, chefe da mesa de operações do StoneX Banco de Câmbio, a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro pode gerar impactos no cenário eleitoral.
“A ligação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, nesta fase crítica, poderia afetar a corrida eleitoral” e “é provável que consolide uma vantagem para o presidente Lula na disputa”, avaliou.
Apesar da repercussão política ter ganhado força apenas durante a tarde, os mercados já operavam em queda desde a manhã. Investidores reagiam tanto à pesquisa Genial/Quaest, que mostrou vantagem numérica de Lula sobre Flávio Bolsonaro, quanto ao avanço da inflação ao produtor nos Estados Unidos.
O Índice de Preços ao Produtor (PPI) norte-americano subiu 1,4% em abril na comparação mensal e acumulou alta de 6% em 12 meses, o maior avanço em quatro anos. O resultado ficou bem acima das expectativas do mercado e refletiu principalmente o impacto da alta dos combustíveis em meio à guerra no Oriente Médio.
Com isso, aumentaram as apostas de que o Federal Reserve manterá os juros elevados por mais tempo. Esse cenário costuma fortalecer o dólar globalmente e reduzir o fluxo de recursos para países emergentes, como o Brasil.
“O PPI veio surpreendentemente forte, mostrando que as empresas já sentem os impactos do petróleo acima de US$ 100. O Fed tem um problema de inflação nas mãos”, afirmou Clark Bellin, da Bellwether Wealth, em entrevista à Bloomberg.