Apenas 8,6% das mulheres que realizam parto vaginal pelo Sistema Único de Saúde (SUS) recebem anestesia para alívio da dor durante o trabalho de parto no Brasil. O dado faz parte de um levantamento preliminar divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz e integra um projeto-piloto desenvolvido em parceria com a Embaixada da França para ampliar o acesso à analgesia obstétrica em maternidades públicas do país.
A iniciativa será implementada inicialmente em dez unidades de saúde e prevê a criação de protocolos voltados ao atendimento de mulheres durante o trabalho de parto. O objetivo é ampliar a oferta de anestesia em partos vaginais e reduzir o sofrimento físico enfrentado por pacientes na rede pública.

Os números apresentados pela pesquisa indicam que o acesso à analgesia obstétrica ainda é restrito no país, principalmente entre mulheres atendidas pelo SUS. Segundo o levantamento, entre janeiro e abril deste ano foram realizados cerca de 205 mil partos vaginais na rede pública. Desses, somente aproximadamente 17 mil contaram com anestesia. Os dados também apontam desigualdades importantes relacionadas à raça e à escolaridade das pacientes. Entre mulheres brancas, o percentual de acesso à anestesia chega a 47,6%. Já entre mulheres pretas e pardas, o índice cai para 39,5%.
A pesquisa foi coordenada pela médica anestesiologista Carma Leal e integra ações voltadas à saúde materna desenvolvidas pela instituição. Segundo especialistas envolvidos no projeto, a limitação do acesso está ligada principalmente à falta de anestesistas, estrutura hospitalar insuficiente e ausência de protocolos específicos para analgesia durante o parto normal.
O projeto conta com apoio da Embaixada da França no Brasil e terá como base experiências adotadas em hospitais franceses, onde o acesso à analgesia em partos vaginais é mais amplo. A expectativa é que, após a fase inicial, os protocolos sejam expandidos para outras maternidades públicas brasileiras.
A advogada Evelin Cristina Pereira, de 37 anos, relatou que teve uma experiência traumática durante a gestação e o parto do filho Ravi, atualmente com dois anos. Segundo ela, o atendimento recebido durante o trabalho de parto foi marcado por sofrimento físico intenso.
“Algumas horas depois, durante o trabalho de parto, quando eu não aguentava mais a dor e não conseguia fazer força, a doula solicitou analgesia. Durante o parto vaginal, expliquei às médicas a anestesia peridural por ter sofrido com a dor e medo da cesárea”, contou.
Evelin afirmou que chegou a receber anestesia apenas após insistência da equipe e da família. Segundo ela, o procedimento foi realizado quando já estava em estágio avançado do trabalho de parto. “Eu já não estava mais conseguindo respirar. Eles falam que não dói, mas dói”, declarou.
A experiência relatada pela advogada se soma a outros depoimentos de mulheres que apontam dificuldades para obter analgesia durante o parto vaginal na rede pública. Especialistas afirmam que ainda existe uma cultura hospitalar que naturaliza a dor do parto como parte obrigatória da experiência materna.
Para o médico anestesiologista Rômulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Parto da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a resistência ao uso da anestesia durante o parto ainda está ligada a questões culturais e estruturais.
“A Febrasgo defende a analgesia. Não queremos obrigar ninguém a querer, mas se a mulher escolhe a analgesia, ela precisa ser respeitada”, afirmou Negrini. Segundo ele, a ampliação do acesso depende da criação de protocolos específicos dentro das maternidades públicas e do treinamento das equipes médicas.
“O parto humanizado, que iniciou o direito à anestesia”, declarou. Negrini ressaltou ainda que a ausência de analgesia não significa necessariamente um parto mais natural ou seguro. De acordo com o especialista, a dor intensa pode gerar sofrimento físico e emocional para as pacientes.
“O uso da analgesia no parto vaginal é seguro e não interfere no desenvolvimento do parto quando realizado corretamente”, afirmou. A baixa oferta do procedimento está relacionada à distribuição desigual de anestesistas pelo País.