A fabricante de roupas íntimas e meias Lupo passará por uma das maiores mudanças de gestão de sua história centenária. Liliana Aufiero, neta do fundador Henrique Lupo e principal executiva da companhia desde 1993, deixará a presidência executiva no próximo dia 1º de junho. O cargo será ocupado por Carlos Alberto Mazzeu, atual vice-presidente e diretor de relações com investidores, que se tornará o primeiro CEO sem ligação familiar a comandar a empresa fundada em 1921, em Araraquara (SP).
A transição encerra um ciclo de mais de três décadas sob liderança direta da família fundadora na operação diária da companhia. Aos 81 anos, Liliana seguirá ligada à empresa em uma nova função institucional, como presidente do Grupo Lupo, cargo recém-criado com atuação estratégica e não executiva. Ela também permanecerá no conselho de administração, presidido por Carlos Dinucci, vice-presidente do conselho da Copersucar.

A sucessão vinha sendo construída internamente há anos. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Mazzeu afirmou que o processo foi planejado para preservar a cultura da empresa e garantir continuidade operacional. “A companhia vai seguir preservando marca, qualidade, cultura industrial, relacionamento com clientes e visão de longo prazo, mas evoluir em estrutura, processos e capacidade de execução”, afirmou o executivo.
A trajetória de Mazzeu dentro da Lupo começou há cerca de quatro décadas, ainda na adolescência, trabalhando no depósito da empresa. Ao longo dos anos, passou por praticamente todas as áreas da companhia até chegar à vice-presidência. Internamente, é visto como um dos principais responsáveis pela modernização operacional e pela estratégia recente de expansão industrial.
Uma das decisões atribuídas ao executivo foi a abertura da primeira fábrica internacional da companhia, em Ciudad del Este, no Paraguai, inaugurada em 2025. O movimento buscou reduzir custos de produção diante da pressão crescente de importados no mercado brasileiro de vestuário e moda íntima. Segundo Mazzeu, a operação paraguaia tem caráter complementar e não substitui a base industrial brasileira.
“A planta do Paraguai foi uma decisão estratégica importante para proteger a competitividade da Lupo em categorias mais pressionadas pelas importações”, afirmou o executivo. De acordo com ele, a tendência é ampliar gradualmente a produção na unidade conforme a evolução dos indicadores operacionais e da competitividade.
Sob o comando de Liliana, a Lupo consolidou posição de liderança nacional nos segmentos de meias, cuecas e meia-calça, além de expandir operações em lingerie, pijamas e roupas esportivas com a marca Lupo Sports. Atualmente, a companhia possui cerca de 9 mil funcionários, cinco fábricas, três centros de distribuição e mais de 900 franquias espalhadas pelo país, além de uma loja em Portugal.
Em 2025, a empresa registrou faturamento de R$ 1,85 bilhão. O portfólio inclui as marcas Lupo, Trifil, Scala e Lupo Sports, em um mercado que disputa espaço com concorrentes como Mash, Zorba, Selene e DelRio.
Primeira mulher da família a ocupar posição executiva na companhia, Liliana chegou à Lupo em 1986, após carreira consolidada na engenharia civil e passagem pela Universidade Estadual de Campinas. Formada pela Universidade de São Paulo de São Carlos em 1967, ela também foi a primeira engenheira civil formada pela instituição no campus.
A mudança marca ainda um afastamento gradual do modelo desenhado pelo fundador Henrique Lupo, que determinou que integrantes da terceira geração da família evitassem atuar diretamente na companhia para reduzir conflitos internos. Atualmente, o grupo reúne cerca de 70 acionistas familiares, mas Liliana era a única integrante com função executiva ativa.