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Alemanha

Merz enfrenta crise na Alemanha

Premiê alemão enfrenta recordes de impopularidade, avanço da ultradireita e tensão na coalizão enquanto relação com os EUA se deteriora
Por O Correio de Hoje
06/05/2026 | 14:39

O primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, completa um ano no cargo nesta quarta-feira 6, em meio a uma combinação de pressões internas e tensões internacionais que colocam seu governo em situação delicada. O conservador de 70 anos enfrenta queda acentuada de popularidade, disputas dentro da coalizão governista e crescimento da ultradireita, ao mesmo tempo em que acumula atritos públicos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em entrevista à revista Der Spiegel na semana passada, Merz reconheceu as dificuldades de comunicação com o eleitorado. “Vou ter de explicar e esclarecer ainda mais. Explicar, explicar, explicar”, afirmou. “Em uma democracia, é preciso conquistar a adesão das pessoas.” As pesquisas, no entanto, mostram deterioração acelerada da avaliação do governo. Segundo levantamentos recentes, apenas 11% dos eleitores se declaram satisfeitos com a gestão de Merz, contra 38% registrados em julho do ano passado. Já o índice de insatisfação saltou de 58% para 87% no mesmo período, desempenho considerado por analistas como o pior de um chefe de governo alemão na história recente.

Merz
Governo de Friedrich Merz está com baixíssima popularidade na Alemanha Foto: Reprodução

Até então, a pior avaliação pertencia ao social-democrata Olaf Scholz, antecessor de Merz e também marcado por dificuldades em administrar uma coalizão heterogênea. Agora, apenas 11% dos entrevistados pelo instituto Forsa afirmam considerar o atual governo melhor do que o anterior. O cenário reflete os conflitos recorrentes entre integrantes da coalizão liderada pela CDU, partido de Merz, em aliança com o SPD e a CSU da Baviera.

As divergências mais visíveis ocorrem na área econômica e energética. A ministra Katherina Reiche, ligada à CDU e ex-executiva do setor de gás, tem protagonizado embates com Lars Klingbeil, ministro das Finanças, vice-primeiro-ministro e principal nome do SPD no governo. Enquanto Reiche defende maior contratação de usinas movidas a gás, Klingbeil pressiona por ampliação de subsídios à energia verde. Especialistas avaliam que a tentativa de acomodar interesses distintos pode ampliar gastos públicos e dificultar reformas estruturais em áreas como previdência e saúde.

Merz chegou ao poder prometendo modernização econômica e reformas fiscais, mas enfrenta resistência dentro da própria base. Advogado que construiu patrimônio no mercado financeiro antes de retornar à política, o premiê passou a adotar posições mais pragmáticas para preservar a coalizão, inclusive admitindo discussões sobre tributação de grandes fortunas. Nos bastidores, episódios de tensão com Klingbeil também vieram a público, embora minimizados pelo chanceler nos últimos dias.

A fragilidade do governo ocorre em paralelo ao crescimento da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de ultradireita que lidera as pesquisas de intenção de voto. Segundo o levantamento mais recente, a AfD aparece com 27% das preferências, contra 22% da aliança CDU/CSU. Embora os números ainda configurem empate técnico, a diferença representa mudança relevante em relação à eleição federal de fevereiro de 2025. O SPD, principal parceiro da coalizão, caiu para a quarta colocação, com 12%, atrás dos Verdes, que somam 16%.

A pressão política pode aumentar após as eleições regionais previstas para setembro, nas quais a AfD aparece como favorita em alguns estados. Ao mesmo tempo, Merz enfrenta desgaste na política externa. Nos últimos dias, o premiê entrou em rota de colisão com Donald Trump após afirmar, durante debate com estudantes em Marsberg, que “os americanos aparentemente não têm uma estratégia” e que “uma nação inteira está sendo humilhada pela liderança iraniana”. Trump reagiu publicamente, dizendo que Merz “não sabia do que estava falando”, e anunciou a retirada de 5 mil soldados americanos da Alemanha, além de sobretarifa de 25% sobre exportações da União Europeia para os Estados Unidos.

A resposta gerou preocupação imediata em setores industriais alemães, especialmente entre montadoras dependentes do mercado americano. Em tentativa de reduzir a tensão, Merz recuou parcialmente e afirmou que Trump tinha razão ao cobrar da União Europeia a aprovação de acordo comercial que congelaria tarifas em 15% para produtos prioritários.

Conhecido pelo estilo direto e confrontador, Merz admitiu recentemente que sua forma de se expressar tem provocado desconforto. “Por natureza, sou uma pessoa muito franca. Digo o que considero certo e aceito que isso possa gerar debates controversos”, declarou. “No entanto, também percebo que essa forma de me expressar causa desconforto em um público extremamente sensível.” Apesar disso, afirmou não pretender mudar sua postura. Analistas políticos avaliam que a característica, valorizada no ambiente empresarial, pode ampliar os custos políticos em um cenário de crescente polarização e fragilidade institucional.