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Saúde

Tratamento contra tabagismo dispara

Busca por tratamento contra o tabagismo cresce no SUS em meio ao aumento recente no número de fumantes no Brasil
Por O Correio de Hoje
24/04/2026 | 15:10

O número de atendimentos ambulatoriais voltados à cessação do tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS) registrou forte crescimento nos últimos anos. Dados do Ministério da Saúde indicam que a procura quase quadruplicou em um período de seis anos, passando de 5.295 atendimentos, em 2020, para 19.181 em 2025. O aumento reflete uma maior busca por apoio profissional para abandonar o cigarro, mas também ocorre em um contexto de mudanças no perfil dos fumantes no país.


Em 2024, o Brasil registrou o primeiro aumento na prevalência de fumantes adultos desde 2007. A proporção subiu de 9,3% para 11,6%, indicando um cenário de atenção para as políticas públicas de controle do tabaco. Para especialistas, o dado reforça a necessidade de estratégias mais eficazes e adaptadas às características atuais dos usuários.

Fumante Cigarro (5)
Atendimentos para parar de fumar quase quadruplicam em seis anos, enquanto especialistas alertam para desafios no acesso e na eficácia das políticas públicas Foto: José Aldenir


“O grupo antitabagismo precisa ser conduzido de maneira lógica, identificando as particularidades de cada participante. Essa é hoje a principal dificuldade no Brasil, ter pessoas preparadas para apoiar a cessação ao tabaco”, afirma Sandra Marques, coordenadora do Programa Nacional de Controle do Tabagismo no Estado de São Paulo.


O tratamento oferecido pelo SUS combina acompanhamento médico, suporte psicológico e, em alguns casos, uso de medicamentos. A estratégia inclui desde consultas iniciais até participação em grupos terapêuticos periódicos, além da distribuição de adesivos de nicotina e prescrição de fármacos específicos para controle da abstinência.


Para a aposentada Genicélia Maria da Silva, de 65 anos, o apoio recebido foi determinante para abandonar o hábito. “Tinha vez que eu fumava 15, às vezes 20 [cigarros]. Era uma ansiedade tão grande, tão grande, que estava fumando um atrás do outro”, relata. Ela destaca que o processo vai além do uso de medicamentos. “É aquela coisa: você está bebendo, está feliz, aí vai dar um trago e pronto. Já era”, afirma.


Especialistas ressaltam que a dependência do tabaco envolve não apenas fatores físicos, mas também comportamentais e emocionais. Por isso, o acompanhamento em grupo é considerado uma ferramenta importante no processo de mudança de hábitos. “A reunião é pela mudança de comportamento. O medicamento não vai, sozinho, fazer isso. Eles ajudam, a partir da troca de vivências, no preparo para treinar habilidades sociais e prevenir recaídas”, explica Sandra Marques.


Apesar dos avanços, o acesso ao tratamento ainda enfrenta desafios, como a falta de profissionais capacitados e a distribuição desigual dos serviços entre municípios. Em algumas regiões, pacientes podem encontrar dificuldades para iniciar ou manter o acompanhamento.


De acordo com Fernando Meirelles, oncologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e coordenador do programa “Viver Sem Cigarro”, o início do tratamento costuma concentrar o maior número de participantes. “O primeiro mês é bastante puxado justamente pelas dificuldades das pessoas em cessar o consumo. Com o passar do tempo, as reuniões se tornam quinzenais e vão reduzindo à medida que o paciente progride menos”, afirma.


Os grupos são abertos e atendem pessoas em diferentes estágios da dependência, inclusive aquelas com histórico de problemas psiquiátricos, desde que acompanhadas por profissionais. O objetivo é ampliar o acesso e oferecer suporte contínuo durante o processo de cessação.


Dados do Ministério da Saúde indicam que, com o tratamento adequado, entre 10% e 30% dos participantes conseguem parar de fumar. Ainda assim, o sucesso depende de fatores como adesão ao acompanhamento, condições de saúde e contexto social.


O custo do tabagismo para o sistema público também é um ponto de atenção. Embora a arrecadação de impostos sobre produtos derivados do tabaco seja significativa, especialistas apontam que os gastos com doenças relacionadas ao hábito superam os valores arrecadados.


Diante desse cenário, o fortalecimento das políticas de prevenção e tratamento é visto como essencial para reduzir o impacto do tabagismo na saúde pública. A ampliação do acesso, a qualificação de profissionais e o incentivo à adesão aos programas são apontados como caminhos para enfrentar o problema.


Ao mesmo tempo, histórias como a de Genicélia mostram que, com apoio adequado, é possível interromper o ciclo da dependência e melhorar a qualidade de vida.