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Saúde

Quando o corpo ideal vira obsessão

Especialistas alertam para riscos da dismorfia corporal, condição que distorce a autoimagem e impacta relações e saúde mental
Por O Correio de Hoje
24/04/2026 | 13:54

A preocupação com a aparência física tem se tornado cada vez mais presente no cotidiano, impulsionada por padrões estéticos difundidos nas redes sociais, pela indústria do fitness e pela valorização de corpos considerados ideais. No entanto, o que começa como cuidado com a saúde ou desejo de bem-estar pode evoluir para um quadro mais complexo, conhecido como dismorfia corporal — um transtorno caracterizado pela distorção da própria imagem e por uma insatisfação persistente com o corpo.


De acordo com especialistas, a condição leva o indivíduo a enxergar defeitos que muitas vezes não existem ou que são imperceptíveis para outras pessoas. Essa percepção distorcida pode provocar sofrimento significativo, afetando a autoestima, a rotina e até mesmo as relações sociais. A psicóloga Juliana Pestana destaca que o problema vai além de uma simples preocupação estética.

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Busca pelo corpo ideal pode se transformar em transtorno; a dismorfia corporal chega a distorcer a forma como a pessoa se enxerga Foto: FreePik


“Esse homem pode deixar de sair ou de ter relações por conta da sua forma física e desenvolver crenças cognitivas de que é pequeno, fraco, inadequado”, afirma.
A pressão por resultados rápidos e a busca incessante por mudanças físicas também estão associadas a comportamentos extremos. Em alguns casos, indivíduos recorrem a dietas restritivas, exercícios em excesso ou uso de substâncias sem acompanhamento médico. O cenário se agrava quando essas práticas passam a interferir diretamente na qualidade de vida.


Segundo o médico Thiago Mathias, doutor em Ciências do Movimento Humano pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e membro da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, a relação com o exercício físico pode assumir um caráter problemático quando há perda de controle.


“Então, muitas pessoas correm às academias de musculação para atender a um objetivo estético. O que a gente observa na literatura é que existe, sim, uma associação entre sintomas que têm um comportamento compulsivo, no sentido de vício com a prática de exercícios e com a academia, e maiores chances de apresentar o transtorno. Não significa causalidade, mas uma associação que deve ser observada”, explica.


Embora o exercício físico seja amplamente reconhecido pelos seus benefícios, o especialista alerta para a necessidade de equilíbrio. Quando a atividade deixa de ser uma prática saudável e passa a ser motivada por insatisfação extrema ou por padrões irreais, o risco de prejuízos à saúde mental aumenta.


Outro fator relevante é o papel das redes sociais na construção de referências estéticas. A exposição constante a imagens editadas, filtros e corpos considerados “perfeitos” pode reforçar comparações e alimentar sentimentos de inadequação. Nesse contexto, cresce a dificuldade de distinguir entre objetivos realistas e expectativas inalcançáveis.


Para os especialistas, o diagnóstico da dismorfia corporal exige atenção a sinais como preocupação excessiva com detalhes da aparência, comportamentos repetitivos — como se olhar constantemente no espelho — e impacto negativo na vida social ou profissional. Em muitos casos, o tratamento envolve acompanhamento psicológico e, quando necessário, intervenção psiquiátrica.


Apesar da crescente discussão sobre o tema, ainda há resistência em reconhecer o problema. A naturalização da busca pelo “corpo ideal” pode mascarar sintomas importantes e atrasar a procura por ajuda. Por isso, profissionais reforçam a importância de ampliar o debate e promover uma relação mais saudável com o próprio corpo.


No limite entre cuidado e obsessão, a linha pode ser mais tênue do que parece. Identificar quando a preocupação com a aparência deixa de ser saudável é fundamental para evitar que a busca por um ideal estético comprometa a saúde física e emocional.