Um exame oftalmológico simples pode se tornar uma ferramenta importante na identificação precoce do risco de demência. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores do Neuroscience Research Australia (NeuRA), que identificou uma associação entre a acuidade visual e o declínio cognitivo, com potencial de prever a doença até 12 anos antes do surgimento dos primeiros sintomas.
Os resultados foram publicados na revista científica Aging and Mental Health e se baseiam na análise de dados de 2.281 participantes ao longo de um período prolongado. O objetivo foi investigar a relação entre a capacidade visual — medida por meio do teste logMAR (logaritmo do ângulo mínimo de resolução) — e o desempenho cognitivo dos indivíduos.

O teste logMAR é amplamente utilizado em consultórios oftalmológicos e avalia a capacidade do paciente de enxergar detalhes finos. Por ser um procedimento simples e acessível, os pesquisadores defendem sua incorporação mais ampla como indicador complementar de saúde cerebral.
De acordo com os autores, a análise mostrou uma ligação consistente entre pior acuidade visual e desempenho cognitivo reduzido em diferentes áreas. A pesquisadora Nikki-Anne Wilson, que liderou o estudo, destacou que a relação entre os dois fatores já havia sido sugerida em pesquisas anteriores, mas muitas delas se baseavam em relatos dos próprios pacientes, o que pode comprometer a precisão dos dados.
Neste novo estudo, porém, foram utilizados resultados objetivos de testes realizados por profissionais de saúde, o que reforça a confiabilidade dos achados. A partir disso, os pesquisadores defendem que a avaliação visual deve ser considerada não apenas como parte da saúde ocular, mas também como um indicador potencial de alterações neurológicas.
Outro ponto abordado pelo estudo é a relação entre perda de visão e isolamento social. Segundo os pesquisadores, pessoas com dificuldades visuais tendem a reduzir a participação em atividades sociais, o que pode contribuir para o declínio cognitivo.
A redução das interações sociais pode estar associada à ansiedade, insegurança e dificuldades práticas de locomoção, fatores que, combinados, afetam o funcionamento do cérebro ao longo do tempo. Assim, a saúde ocular passa a ter impacto indireto sobre aspectos emocionais e sociais que influenciam a cognição.
A pesquisa também aponta evidências de que a perda de visão pode estar relacionada a mudanças estruturais no cérebro. Em pacientes com doença de Alzheimer, por exemplo, já foram identificadas alterações na retina, além de outros sinais detectados em exames de neuroimagem.
Essas descobertas indicam que a deficiência visual pode não ser apenas um sintoma isolado, mas parte de um processo biológico mais amplo que envolve o sistema nervoso. Em alguns casos, as alterações cerebrais vão além das áreas responsáveis pela visão, afetando funções cognitivas mais complexas.
Os pesquisadores também destacam a necessidade de ampliar o acesso aos cuidados oftalmológicos. Embora exames de visão sejam relativamente simples, ainda existem barreiras para que parte da população tenha acesso regular à avaliação e ao tratamento adequado.
A inclusão desses exames como parte de uma abordagem clínica mais abrangente pode contribuir para a prevenção de doenças neurodegenerativas, especialmente entre adultos mais velhos. Nesse contexto, a detecção precoce se torna um elemento central para reduzir o impacto da demência.
O estudo se alinha a diretrizes internacionais que apontam fatores de risco modificáveis para demência. Entre eles estão colesterol LDL elevado, baixo nível de escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, lesões cerebrais traumáticas, poluição do ar e isolamento social.
Mais recentemente, a perda de visão também passou a integrar essa lista, sendo associada a cerca de 2% dos casos globais de demência.
Apesar disso, os especialistas ressaltam que nem todas as causas da perda visual são irreversíveis. Condições como catarata, por exemplo, podem ser tratadas, o que abre espaço para intervenções capazes de reduzir riscos associados ao declínio cognitivo.
A principal conclusão do estudo é que identificar alterações na visão de forma antecipada pode contribuir para estratégias de prevenção mais eficazes. Ao detectar precocemente problemas visuais e tratá-los, é possível minimizar impactos indiretos sobre o cérebro e a qualidade de vida.
Para os pesquisadores, a inclusão de exames oftalmológicos regulares como parte de uma avaliação de saúde mais ampla pode representar um avanço na forma de lidar com a demência, ampliando as possibilidades de intervenção antes do surgimento dos sintomas clínicos.