A iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) de pedir à Justiça a retirada de homenagens ligadas à ditadura militar em Natal repercutiu entre vereadores da capital potiguar. Parlamentares avaliam a medida como um avanço no processo de preservação da memória histórica e de reconhecimento das violações cometidas durante o regime.
A ação do MPF questiona a permanência de nomes de ruas, espaços públicos e outras referências que homenageiam agentes ligados à ditadura, período marcado por repressão política, censura e violações de direitos humanos. Para os vereadores, a discussão vai além de uma mudança simbólica, envolvendo também a forma como a história é contada e transmitida às novas gerações.

Daniel Valença (PT) afirmou que a medida tem impacto direto na construção da memória coletiva da cidade e destacou a relevância histórica da decisão. “Uma decisão importantíssima para a história, a memória e a verdade. É importante lembrarmos que Natal foi uma das cidades que o prefeito foi preso pela ditadura logo após o golpe, o nosso saudoso Djalma Maranhão.”
Para o parlamentar, além dos crimes contra a democracia e a vida, como tortura, assassinatos, ausência de eleições e restrições à liberdade de expressão, a ditadura também atuou para impedir que trabalhadores tivessem acesso a direitos básicos, o que reforça a relevância da medida.
Ele acrescenta que, no mesmo sentido, foi proposta na Câmara a criação da Semana do Direito à Memória e à Verdade, uma proposição legislativa já apta a ir ao plenário, que prevê a realização de sessões solenes, audiências públicas e a veiculação de conteúdos na TV Câmara, entre outras iniciativas voltadas a garantir espaço e visibilidade ao processo de reconstrução da memória e da verdade sobre a história do país.
A vereadora Brisa Bracchi (PT) também destacou que a manutenção dessas homenagens contribui para naturalizar a violência do período. “Manter homenagens a agentes da ditadura é transformar a violência de Estado em paisagem cotidiana. É fazer com que nomes ligados à tortura, à perseguição política e ao desaparecimento de jovens brasileiros sejam repetidos todos os dias como se fossem dignos de honra. E isso não é neutro: isso educa, isso legitima, isso perpetua.”
Para ela, a retirada dessas referências é um passo necessário no campo da reparação histórica. “Uma cidade que respeita a memória das vítimas não pode continuar celebrando seus algozes. Mudar esses nomes é um passo necessário de justiça, de reparação e de compromisso com a verdade.”
Procurados pela reportagem, os vereadores de direita Camila Araújo (União) e Subtenente Eliabe (PL) não quiseram se pronunciar sobre o tema.
Entenda a ação
A ação do MPF, protocolada na 5ª Vara Federal do Rio Grande do Norte, é contra o Município de Natal. No processo, o órgão pede que a Justiça obrigue a gestão municipal a retirar nomes de bens e logradouros públicos que façam referência ao golpe militar de 1964 ou a agentes da ditadura. A medida também cobra providências da Câmara Municipal para impedir novas homenagens desse tipo.
Segundo o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Emanuel Ferreira, celebrar o período autoritário enfraquece a democracia e pode estimular movimentos que defendem a ruptura institucional. Ele aponta que nomes como “31 de Março”, “Presidente Costa e Silva” e “Presidente Médici”, ainda presentes na cidade, violam princípios constitucionais e direitos humanos.
O procurador ressalta que o Brasil já foi condenado em cortes internacionais por não enfrentar adequadamente os efeitos da ditadura e afirma que a revisão dessas homenagens é parte do processo de justiça de transição e preservação da memória das vítimas. Ele cita ainda o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, publicado em 2014, como um marco nesse debate, reforçado após os atos de 8 de janeiro de 2023.
“Nenhum desses eventos, infelizmente, foi capaz de sensibilizar o poder legislativo local para que, exercendo o necessário papel de guardião político da democracia, editasse lei proibindo as homenagens objeto desta ação”, afirma Emanuel Ferreira.
Receba as notícias do RN no seu WhatsApp. Basta entrar no canal do Agora RN.