No Brasil, a divisão desigual do trabalho doméstico e de cuidado começa ainda na infância. Dados de pesquisas sobre uso do tempo indicam que meninas entre 10 e 14 anos dedicam mais horas às tarefas da casa e ao cuidado de familiares do que meninos da mesma idade.
Considerando todas as idades, as mulheres são responsáveis por cerca de 80% das atividades de cuidado não remuneradas no país — como cuidar da casa, de crianças, idosos ou parentes dependentes. Esse conjunto de tarefas, muitas vezes invisível nas estatísticas econômicas tradicionais, tem impacto direto na organização da vida familiar e nas oportunidades de estudo e trabalho.

A professora e pesquisadora Jordana Cristina de Jesus, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), afirma que a desigualdade aparece desde cedo na rotina doméstica. Segundo ela, meninas entre 10 e 14 anos dedicam aproximadamente 9,1% do tempo às tarefas da casa e ao cuidado de parentes, enquanto os meninos nessa faixa etária realizam cerca de 2,4%.
A análise faz parte de um estudo coordenado por pesquisadores da UFMG e da UFRN que investiga como gênero, raça e escolaridade influenciam a distribuição do trabalho de cuidado ao longo da vida. A pesquisa utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e outras bases estatísticas sobre uso do tempo.
Para os autores, o aprendizado dessas responsabilidades começa dentro do ambiente familiar e acaba reproduzido em outros espaços sociais. A expectativa de que meninas assumam tarefas domésticas mais cedo contribui para consolidar padrões de desigualdade que se estendem à vida adulta.
Mesmo com avanços na escolaridade feminina, o desequilíbrio persiste. Estudos indicam que mulheres com ensino superior continuam dedicando mais tempo ao cuidado doméstico do que homens com o mesmo nível de formação.
Entre as consequências dessa divisão estão menor disponibilidade de tempo para estudos, trabalho remunerado e participação em outras atividades. Pesquisadores destacam ainda que a sobrecarga de tarefas domésticas afeta de forma mais intensa mulheres negras.
Especialistas afirmam que o reconhecimento do trabalho de cuidado é fundamental para compreender desigualdades econômicas e sociais. Embora não seja remunerado, esse conjunto de atividades sustenta o funcionamento cotidiano das famílias e da própria economia.