O aumento do registro de crianças nascidas com microcefalia, em 2015, foi associado à circulação do vírus Zika no Brasil. Contudo, apesar da observação primária de malformações na cabeça de recém-nascidos, não havia ainda uma definição sobre a estrutura cerebral. Então, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) analisaram exames radiológicos de bebês, com o intuito de oferecer informações precisas e criar um guia de identificação de casos da doença associados ao surto.
Com a participação de pesquisadores do Instituto do Cérebro (ICe), do Instituto de Medicina Tropical (IMT) e do Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol), o estudo traz como maior contribuição as consequências morfológicas da infecção por Zika aos cérebros das crianças, ou seja, uma informação que auxilia no diagnóstico, o qual pode ser confirmado por meio de exames de sangue.

De acordo com o pesquisador do ICe, Eduardo Sequerra, “quando começou a aparecer casos de microcefalia, lá em outubro do ano passado, a primeira pergunta que me veio a cabeça foi como estariam os cérebros dessas crianças. Nós sabíamos que o tamanho da cabeça estava pequeno, mas, e o cérebro? Não sabíamos nada sobre o que estava acontecendo por lá”, explica.
Para elucidar a problemática, o grupo de pesquisadores examinou 27 crianças, com idade entre cinco dias e quatro meses, nascidas de setembro de 2015 a fevereiro de 2016, na cidade do Natal-RN. Sequerra esclarece que a vantagem de analisar somente os pacientes da capital potiguar está ligada à população que é relativamente pequena e com pouquíssimos casos de microcefalia por ano. “Assim, provavelmente a maioria, se não todos os pacientes, desse estudo desenvolveram microcefalia devido à causa do surto, a entrada do vírus Zika no país”, justifica.
Averiguando os resultados da tomografia computadorizada do cérebro dos pacientes recém-nascidos, os aspectos predominantes foram a calcificação intracraniana (100%), a dilatação do sistema ventricular (100%) e a desordem da migração neuronal (100%), seguidos pela alteração morfológica ventricular (88,9%), pelo mal alinhamento dos ossos do crânio (63%), pela atrofia do cerebelo (44,4%), pela atrofia do tronco cerebral (37%) e pela presença de cistos de substância branca (29,6%). Porém, nenhum caso tinha alteração no globo ocular.
Para o pesquisador do ICe, foi possível observar diferenças entre os tipos de microcefalias. Por exemplo, as de causa genética apresentam uma mutação em algum gene importante para o desenvolvimento cerebral, gerando cérebros pequenos, mas completamente diferentes dos desse surto. “As microcefalias mais semelhantes, associadas ao Zika, podem ser confundidas com as causadas por toxoplasmose e citomegalovírus”, conta.
“Ainda vamos saber quais serão as consequências cognitivas para essas crianças. O que a forma do cérebro nos permite é prever as consequências para a função, mas ainda temos que dar tempo à neuroplasticidade atuar, especialmente em cérebros tão jovens”, considera o neurocientista.
Além de Eduardo Sequerra, também fizeram parte do estudo a professora Selma Maria Bezerra Jeronimo, do IMT, e pesquisadores do Huol, Yuri Raoni Ramalho Rocha, José Ricardo Cavalcanti Costa, Pericles Almeida Costa, Gessica Maia, Rafael de Medeiros Vasconcelos, Cynthia Ramos Tejo, Rafaella Martins Batista, Manoel Lima Neto, Gustavo Graco Martins de Lima, Francisco Negromonte, Marcelle Borba e Manuel Moreira Neto.
Microcefalia e Zika
A microcefalia é uma malformação observada pela redução do crescimento do cérebro. A doença pode ter causa genética ou ser uma consequência de fatores ambientais, especialmente a infecção congênita, como vírus, protozoários ou fungos.
O vírus Zika é transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti. Conforme o Ministério da Saúde, até 1o janeiro de 2016, havia 3.174 novos casos de microcefalia em 684 cidades de 21 estados no Brasil. O maior número foi registrado em Pernambuco, com 1185 casos. No Rio Grande do Norte, o recorde de notificações, de 2010 a 2014, foi de 1,8 casos por anos, chegando a um total de 169 novos casos em 2015, com 11 mortes.