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Esporte
Diarista de Macaíba participa de Campeonato Mundial de Xadrez na Polônia e vira destaque: “Ano novo, vida nova”
Aos 24 anos, Cibele Florêncio foi ao Mundial da Polônia e se divide entre faxinas de dia e treinos à noite
Estadão
08/01/2022 | 11:45

“Ano novo, vida nova”. O que para muitos é uma mera expressão trivial, para Cibele Florêncio, natural de Macaíba (RN), é o resumo literal dos seus primeiros dias de 2022. Desde que voltou ao Brasil em 1º de janeiro, depois de ter disputado o Campeonato Mundial de Xadrez, em Varsóvia, na Polônia, a potiguar de 24 anos vive os efeitos de ser uma das melhores enxadristas do Brasil.

Universidades, referências do xadrez e a imprensa disputam um espaço na agenda de Cibele, interessados em saber como ela, que trabalha fazendo bicos de faxinas e no comércio de marmitas da mãe, conseguiu se tornar destaque no xadrez mundial.

Cibele é atenciosa, mas não costuma dar muitos detalhes nas respostas. É objetiva, como se houvesse um tempo determinado para responder, como nas modalidades Blitz e Rápido do xadrez que Cibele pratica. Em Varsóvia, inclusive, uma possível vitória só não veio porque ela deixou o “seu tempo cair”, jargão usado quando o tempo para uma jogada se esgota. “Eu estava com 98% de chance de vitória, mas eu perdi porque o meu tempo esgotou e isso fez ela ganhar. Ela (a adversária) perdeu no jogo, mas ganhou no tempo”, disse Cibele.

Na Polônia, a brasileira disputou 20 jogos, sendo alguns contra grandes-mestres ou mestres internacionais. Mesmo não conseguindo vencer nenhum, disputar um torneio internacional, o primeiro da carreira, já foi uma experiência válida para ela. “Participar de um mundial foi um sonho realizado. Foi maravilhoso. Estar entre as melhores do mundo, e com jogadoras que eu admiro, foi uma experiência inexplicável”, avaliou.

Mas, por pouco, essa experiência não pôde ser vivida. A potiguar ganhou o direito de disputar o mundial na Polônia ao ser vice-campeã brasileira de xadrez em um torneio realizado no Rio Grande do Norte, em dezembro de 2021. Mas, sem condições financeiras para bancar toda a viagem, ela precisou contar com a ajuda de uma rede de médicos que conheceram a sua história por uma emissora de uma rádio de Natal, e pagaram parte dos custos que Cibele teve na Europa.

Cibele conheceu o xadrez aos nove anos, por meio do projeto “Xadrez Macaeibense”, que incentivava crianças a praticar a modalidade nas escolas, e subsidiava a inscrição dos jogadores em campeonatos.

Desde as primeiras aulas ela mostrou facilidade para entender os atalhos do jogo e não tinha dificuldades para vencer as amigas e adversárias. Percebendo a facilidade de Cibele, seu professor a levou para disputar a primeira competição e Cibele terminou em segundo lugar. Na adolescência, continuou jogando, mas sempre convivendo com as dificuldades financeiras para conseguir treinar e competir. E tudo ficou ainda mais difícil depois que o projeto Xadrez Macaibense se encerrou.

DIFICULDADES

Hoje, sem ter aulas e sem professor, Cibele tenta melhorar o seu jogo praticando com a sua irmã e jogando em aplicativos no celular. Os treinos, porém, acontecem só à noite, depois dos trabalhos que Cibele faz durante o dia ajudando a mãe no comércio de marmitas da família e também fazendo bicos de faxina. “Eu chego em casa muito cansada. Então, o único horário que resta para treinar é à noite, depois de ter trabalhado o dia todo.”

Como se não bastassem as dificuldades estruturais que impedem Cibele de estar presente nos torneios, ela menciona também que quando consegue se inscrever e participar de uma competição, precisa lidar com outro problema: o preconceito. “Quando eu era pequena, algumas meninas mais ricas não me cumprimentavam depois dos jogos. Isso me magoava um pouco”, lembra. “Em torneios abertos, eu percebo que homens chegam a subestimar a adversária por ser mulher. E acabam perdendo”.

Para Cibele, 2022 tem se apresentado como um ano que pode marcar um ponto de não retorno na sua vida. Somente em uma semana, ela já recebeu convites para cursos que ensinam xadrez e relatou que gandes mestres vieram procurá-la para oferecer aulas para ela.

Além disso, ela revelou que na quarta-feira que uma faculdade de Natal lhe procurou para oferecer uma bolsa de estudos para o curso que ela quiser. Cibele ainda não decidiu, mas já tem uma resposta encaminhada: “Educação Física”. Ela espera que, neste ano, ela consiga um emprego fixo que não a desgaste tanto a ponto de impedi-la de treinar à noite e que a remunere bem o suficiente para custear as inscrições nos campeonatos. “Se isso acontecesse, já faria muita diferença”.

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