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Saúde

Violência psicológica é a mais relatada em consultórios ginecológicos

Violência sexual aparece em segundo lugar, seguida por agressões físicas e patrimoniais; parte dos médicos afirma não se sentir preparada para lidar com os casos
Por O Correio de Hoje
16/03/2026 | 12:55

A violência psicológica aparece como a forma de agressão mais frequentemente identificada por ginecologistas e obstetras no atendimento a mulheres. É o que indica uma pesquisa conduzida pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que investigou como esses profissionais percebem e lidam com casos de violência em consultórios e serviços de saúde.

De acordo com o levantamento, esse tipo de violência é o mais observado nas consultas. Em seguida aparecem os casos de violência sexual, depois agressões físicas e, por último, violência patrimonial.

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Foto: José Aldenir / O Correio de Hoje

O estudo também mostra que a maioria dos profissionais já atendeu mulheres em situação de violência. Segundo os dados, 57% afirmam lidar com esses casos ocasionalmente e 15% relatam atendê-los com frequência.

Apesar da recorrência do problema na prática clínica, nem todos os médicos se consideram preparados para enfrentar essas situações. Cerca de 23% dos participantes da pesquisa disseram sentir-se pouco ou nada preparados para acolher e orientar pacientes vítimas de violência.

O levantamento indica que a abordagem do tema ainda é irregular nas consultas. Aproximadamente 46% dos médicos afirmaram conversar sobre violência com suas pacientes apenas quando percebem sinais claros.

Outros 26,5% relataram abordar o assunto somente quando a própria paciente menciona espontaneamente alguma situação de agressão. Uma parcela menor, de 14,48%, diz incluir o tema de forma rotineira nas consultas, enquanto 12,41% afirmam raramente ou nunca tratar da questão.

Entre as dificuldades apontadas pelos profissionais estão a ausência de redes de apoio adequadas e entraves legais ou burocráticos para encaminhar os casos.

O estudo foi realizado com 290 ginecologistas e obstetras de cinco estados brasileiros: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí e Rio Grande do Sul. O questionário utilizado tinha perguntas fechadas e múltipla escolha, e a participação foi voluntária e anônima.

A maioria dos participantes possui mais de 50 anos e cerca de 61% trabalham simultaneamente nos sistemas público e privado de saúde.

A partir dos resultados do levantamento, a Febrasgo pretende desenvolver ações voltadas à formação de profissionais para lidar com situações de violência contra a mulher.

Entre as iniciativas previstas estão a produção de conteúdos educativos, capacitações e orientações para ajudar médicos a identificar sinais de agressão e oferecer apoio adequado às pacientes.

Outra iniciativa recente é o guia “Boas práticas no atendimento médico às mulheres vítimas de violência”, lançado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). O documento reúne orientações para tornar o atendimento mais acolhedor e respeitoso.

Segundo as recomendações, o profissional deve adotar uma escuta qualificada, respeitar o tempo da paciente e compreender os limites que ela estabelece durante a consulta. A abordagem também deve evitar julgamentos e considerar fatores que podem dificultar a denúncia, como dependência financeira ou medo do agressor.

Especialistas alertam que, em alguns casos, a vítima pode apresentar explicações alternativas para lesões ou ferimentos, o que exige atenção dos profissionais de saúde para identificar possíveis sinais de violência. (Texto reescrito com base em reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo sobre pesquisa da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).