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Exportações

Tarifaço não afeta balança comercial, mas indústria perde

No primeiro semestre de 2026, as trocas comerciais entre os dois países registraram queda de 12,8%
Agência Brasil
21/07/2026 | 05:38

As tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros devem produzir efeitos limitados sobre o desempenho agregado da balança comercial do Brasil, mas tendem a reduzir a competitividade de segmentos da indústria de transformação com maior dependência do mercado americano. Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, as medidas anunciadas pelo governo de Donald Trump atingem apenas 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, preservando grande parte das commodities responsáveis pelo saldo positivo do comércio exterior. No primeiro semestre de 2026, as trocas comerciais entre os dois países somaram US$ 36,4 bilhões, queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões, o que resultou em déficit comercial brasileiro de US$ 1,5 bilhão, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Na avaliação da pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls, o tarifaço dificilmente modificará o saldo da balança comercial brasileira, já que os Estados Unidos perderam participação relativa na pauta exportadora nacional. “Alterar o saldo da balança, em termos macroeconômicos, é pouco provável. O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%”, afirma. Segundo a economista, os impactos serão mais intensos no âmbito microeconômico, atingindo empresas dos segmentos de máquinas, equipamentos, madeira e calçados, que possuem maior exposição ao mercado norte-americano e menor capacidade de redirecionar vendas para outros destinos.

Navio cargueiro
Governo brasileiro procura outros mercados para compensar perdas com os EUA - Foto: José Aldenir

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também avalia que o principal efeito recairá sobre a indústria de bens manufaturados. Segundo ele, o superávit comercial brasileiro continua sustentado pelas commodities, justamente os produtos que ficaram de fora das novas sobretaxas, como soja, carnes, café, petróleo e suco de laranja. “Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil”, afirma. Para Castro, ao sobretaxar produtos industrializados brasileiros, os Estados Unidos abrem espaço para fornecedores de outros países ocuparem mercados antes atendidos pela indústria nacional.

Os especialistas também avaliam que a escalada tarifária passou a incorporar componentes políticos. Segundo Lia Valls, a decisão de ampliar as tarifas para determinados produtos brasileiros, embora o Brasil mantenha déficit comercial com os Estados Unidos, indica que fatores como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e questões ambientais passaram a influenciar a política comercial norte-americana. Diante desse cenário, ambos consideram pouco eficaz uma eventual retaliação brasileira com base na Lei da Reciprocidade Econômica. “O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você”, afirma Lia Valls, que defende o encaminhamento da disputa à Organização Mundial do Comércio (OMC). José Augusto de Castro compartilha avaliação semelhante. “O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar”, diz.