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Tecnologia

Sucessão na Apple ganha força enquanto Tim Cook mira legado

Executivo conduz fase marcada por desafios em inovação e inteligência artificial
Por O Correio de Hoje
01/04/2026 | 14:59

Às vésperas dos 50 anos da Apple, celebrados nesta quarta-feira 1º, T quarta-feira 1º, Tim Cook acumula 15 anos à frente da companhia — período superior ao de Steve Jobs no comando. Aos 65 anos, o executivo inicia a preparação para a sucessão enquanto conduz uma fase considerada decisiva para definir seu legado.

Desde que assumiu a liderança, Cook ampliou o valor de mercado da empresa de cerca de US$ 350 bilhões para US$ 4 trilhões. O momento atual, no entanto, alimenta especulações sobre a transição de comando, vista como um movimento natural diante do tempo à frente da companhia.

Tim Cook
Cook ampliou valor de mercado da empresa para cerca de US$ 4 trilhões - Foto: Divulgação

O nome mais citado para assumir o cargo é o de John Ternus, vice-presidente sênior de engenharia de hardware. Aos 50 anos, ele é o integrante mais jovem da equipe executiva, o que indicaria potencial para uma gestão de longo prazo. A eventual escolha também sinalizaria uma volta ao protagonismo da área de hardware, segmento no qual Cook foi alvo de críticas por menor ritmo de inovação em comparação ao período de Jobs.

Reportagem do Financial Times apontou que a transição poderia ocorrer até junho deste ano, mas essa avaliação foi contestada por Mark Gurman, da Bloomberg, que afirmou que o cronograma não procede. Analistas que acompanham a empresa indicam um horizonte mais longo.

“Não acho que ele vá sair antes de 2027. Ele não vai sair até que a estratégia de IA esteja bem consolidada e antes de passar pelo 20º aniversário do iPhone, no qual se espera um novo design. Portanto, não acho que ele vá sair tão cedo”, disse Dan Ives, analista da Wedbush Securities.

Para David Pogue, que cobre a empresa há mais de três décadas e lançou recentemente um livro sobre a história da Apple, o prazo pode ser ainda maior. Ele também afirma que o sucessor deverá ser escolhido internamente.

“Conversei com todas as pessoas do entorno executivo de Cook, e elas são incrivelmente inteligentes. São as pessoas mais inteligentes e perspicazes que você já conheceu na vida. Qualquer uma delas fará um bom trabalho. O sucessor virá de dentro da Apple. Eles não escolheriam alguém de fora para assumir”, afirmou.

Apesar de ter sucedido Jobs com estabilidade e crescimento, Cook enfrenta um novo desafio estratégico: conduzir a empresa de um modelo centrado em hardware para um ecossistema baseado em serviços e inteligência artificial. A transição é vista como determinante para a sustentabilidade da companhia no longo prazo.

“O futuro de toda a empresa de tecnologia vai passar por IA. É o teste de fogo do Tim Cook. Ele fez um trabalho incrível até agora. Ele criou muito mais valor, pelo menos numericamente, do que o Steve Jobs. Mas ele deixou a bola cair em inovação. Não é algo necessariamente conectado com o resultado do negócio”, disse Manoel Lemos, sócio-diretor da Redpoint eventures.

No campo da inteligência artificial, a Apple foi mais lenta que concorrentes. A plataforma Apple Intelligence chegou a parte da linha de produtos quase dois anos após a popularização do ChatGPT, enquanto empresas como Google, Meta, Microsoft e Samsung avançaram com novas soluções. A assistente Siri, apresentada como peça central dessa estratégia, foi exibida com recursos ampliados em 2024, mas ainda sem implementação completa.

Em resposta, a companhia reorganizou a liderança da divisão de IA no fim de 2025 e prepara uma nova etapa de desenvolvimento da assistente virtual.

Embora tenha lançado produtos como Apple Watch, AirPods e Vision Pro, analistas apontam menor dinamismo recente em hardware. Concorrentes avançaram com formatos como telas dobráveis e dispositivos vestíveis com inteligência artificial. Há também novos movimentos no setor, como a parceria entre a OpenAI e Jony Ive para o desenvolvimento de novos dispositivos.

“O legado de Cook, a parte mais duradoura dele, será construído sobre como ele vai lidar com a IA, a quarta revolução industrial”, afirmou Ives.

Ao longo de sua gestão, Cook levou a Apple a atingir marcos inéditos no mercado financeiro, tornando-se a primeira empresa a alcançar valores de US$ 1 trilhão, US$ 2 trilhões e US$ 3 trilhões em valor de mercado. Também ampliou a participação da área de serviços, que passou de US$ 20 bilhões para US$ 100 bilhões em receita, com alta rentabilidade.

Outra mudança estrutural foi a adoção de chips próprios, reduzindo a dependência de fornecedores externos e ampliando o desempenho dos dispositivos.

Em 2025, o executivo também enfrentou pressões externas, especialmente ligadas às políticas comerciais do então presidente Donald Trump, que impactaram cadeias de suprimento e custos. A empresa estimou inicialmente impacto de US$ 900 milhões com tarifas, mas conseguiu atravessar o período com danos limitados.

No campo da imagem, a Apple também preservou maior distanciamento político em relação a outras lideranças do setor, como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Sam Altman, que tiveram maior associação com a administração americana.