A pré-candidata ao Senado Samanda Alves (PT) afirmou que o Rio Grande do Norte está pagando um “preço alto” por não contar, na avaliação dela, com uma representação no Senado à altura das necessidades do Estado. Presidente estadual do PT, ela defendeu uma mudança no perfil da atuação parlamentar, criticou o que classificou como transformação do Senado em um “balcão de emendas” e dirigiu questionamentos ao senador Styvenson Valentim (Podemos), líder das pesquisas de intenção de voto para a eleição deste ano.
Em entrevista à rádio 98 FM, Samanda sustentou que a atuação dos parlamentares não pode se limitar à destinação de recursos por meio de emendas. “Eu tenho uma avaliação que o Rio Grande do Norte é sub-representado no Senado. O Senado virou um balcão de negociação de emendas. E o Senado é muito maior que isso”, declarou. Para a pré-candidata, a igualdade de peso entre os representantes dos estados deveria ser utilizada para ampliar a capacidade de articulação do RN nas decisões nacionais, na formulação de políticas públicas e na disputa por projetos estratégicos.

A crítica parte da avaliação de que o senador deve atuar para além da liberação de verbas destinadas a municípios e instituições. Samanda citou a trajetória de Fátima Bezerra (PT) no Senado como referência de uma atuação baseada em articulação política e afirmou que o Estado precisa de representantes capazes de contestar decisões federais quando o RN for prejudicado.
Ao mencionar episódios relacionados ao programa Mais Médicos e à expansão da rede de escolas técnicas, na época em que Fátima Bezerra era senadora, argumentou que determinadas conquistas não decorreram simplesmente de emendas parlamentares. “E não foi um assunto de emenda parlamentar, era fruto de articulação política. Então, a gente precisa de uma voz que faça o Rio Grande do Norte ser grande no Senado Federal”, afirmou.
Nesse contexto, Samanda disse que, se for eleita, pretende exercer um mandato voltado à defesa das potencialidades econômicas e dos projetos estruturantes do Estado. Citou iniciativas relacionadas à indústria verde, ao gás natural na região de Areia Branca e ao potencial mineral potiguar como exemplos de temas que, em sua avaliação, exigem presença política ativa em Brasília. “A gente quer ocupar esse espaço do Senado. Não é para se aposentar. Não é para descansar. É para trabalhar muito”, declarou. Segundo ela, o objetivo seria fazer o RN ocupar maior espaço “nas discussões das políticas públicas, nas discussões dos ministérios, dos programas, dos projetos”.
A pré-candidata vinculou essa proposta de atuação a uma eventual reeleição do presidente Lula (PT) e defendeu que o Estado tenha uma representação alinhada ao governo federal para cobrar políticas e investimentos. Ela afirmou que pretende repetir uma postura de articulação que atribui a Fátima Bezerra quando senadora e chegou a estabelecer uma meta pessoal ambiciosa para o mandato. “Se o povo do RN permitir, eu quero estar ocupando essa cadeira para ser a melhor senadora que esse Estado já teve. Primeiro, que eu aprendi com a melhor professora, que vai estar do nosso lado”, afirmou.
Foi ao discutir o peso das emendas parlamentares que Samanda fez uma das críticas mais duras da entrevista. Para ela, o Rio Grande do Norte sofre as consequências de uma representação insuficiente em debates nacionais e na articulação de políticas estruturantes. “O papel do senador não é só um papel de emendas, de um balcão de emendas. Não pode ser isso. E o Rio Grande do Norte tem sentido falta, está pagando preço alto por não ter uma senadora, um senador à altura, que defenda o Estado”, declarou.
Questionada especificamente sobre Styvenson Valentim, Samanda reconheceu a visibilidade do senador pela destinação de recursos, mas contestou a ideia de que esse seja o principal critério para avaliar um mandato. A presidente do PT argumentou que todos os senadores dispõem de instrumentos orçamentários para indicar emendas e ressaltou que a execução dos recursos depende do Orçamento da União.
Em seguida, lançou um questionamento direto sobre a atuação do parlamentar: “Retire as emendas do senador Styvenson, e o que é que fica de papel dele, de entrega dele como senador do Rio Grande do Norte?”.
Samanda também procurou relativizar a associação exclusiva entre a figura do parlamentar e os recursos destinados por emendas. Segundo ela, o dinheiro executado depende da existência de políticas e dotações no planejamento federal. “Até porque os recursos das emendas são recursos do Governo Federal. São ações do governo presidente Lula chegando. Se não tivesse no planejamento federal, lá no PPA, na LOA, na LDO (instrumentos orçamentários), não teria como você fazer a indicação”, afirmou.
Em outro trecho, Samanda voltou a criticar Styvenson ao tratar da postura política do senador em Brasília. Ela questionou a relação do parlamentar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e defendeu maior independência.
“Eu acho que o senador tem que ter muita independência, ter um projeto que guie a sua conduta”, disse. Na sequência, indagou: “Você vai pedir a bênção sempre ao Alcolumbre. O que ele conhece do Rio Grande do Norte, de demanda aqui do nosso Estado? Então, não pode ser pautado pelo Alcolumbre”. Questionada sobre uma eventual submissão política, respondeu que “a postura dele nos leva a fazer essa leitura”.
Relação com Rafael Motta
A pré-candidata do PT também falou sobre sua relação com Rafael Motta (PDT), pré-candidato à segunda vaga do Senado no mesmo palanque. Um dos temas foi o episódio ocorrido durante a recente visita de Lula ao Rio Grande do Norte, quando Rafael inicialmente permaneceu fora do palco da agenda presidencial e acabou chamado pelo próprio presidente depois de ser identificado entre os presentes na plateia.
Samanda afastou a interpretação de que o episódio tenha revelado um problema político na aliança e atribuiu a situação ao cerimonial de uma agenda institucional. Segundo ela, nem mesmo sua própria presença no palco estava previamente clara. “Na verdade, eu nem sabia que ia compor. Quando chamaram ali, que o pessoal começou a subir, foi que eu vi que tinha um espaço ali e subi. Então foi uma questão por ser uma agenda institucional”, afirmou.
A presidente do PT disse que não havia percebido inicialmente a presença de Rafael entre o público e relatou que Lula fez o convite depois de ser alertado. “Eu não tinha visto o Rafael lá, no meio do pessoal. Quando Lula foi alertado, ele fez o convite ali. Mas já superado esse episódio. Está dado que não foi nenhuma questão para além dessa forma de construção dos espaços institucionais”, declarou.
Ao falar da convivência eleitoral entre as duas pré-candidaturas ao Senado, Samanda afirmou que a presença de Rafael resulta de uma decisão do PDT dentro da composição partidária e que não há novas discussões sobre o tema.
Samanda sustentou que Rafael está integrado ao grupo e disse que as duas candidaturas deverão atuar conjuntamente durante a campanha. Ao ser questionada sobre pesquisas em que o ex-deputado aparece à frente dela, afirmou não considerar o desempenho surpreendente, citando o histórico eleitoral e o recall do aliado.
“Rafael Motta foi deputado federal, disputou outras eleições. Tem um recall muito forte da última eleição do Senado Federal. Então, é natural que ele chegue com esses números aí”, disse. Em seguida, resumiu a estratégia que pretende adotar: “Nós vamos trabalhar juntos. Uma candidatura fortalecendo a outra”.