A indústria salineira do Rio Grande do Norte, responsável por praticamente toda a produção de sal marinho do País, atravessa um dos momentos mais delicados das últimas décadas. A perda de competitividade provocada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos reduziu o principal mercado externo do setor, aumentou a oferta no mercado doméstico e obrigou as empresas a buscar alternativas para preservar empregos e encontrar novas oportunidades de negócio. Ao mesmo tempo, uma possibilidade começa a ganhar espaço entre empresários e pesquisadores: o uso do sódio na produção de baterias para armazenamento de energia, segmento que pode abrir uma nova frente de desenvolvimento industrial para o Estado.
Em entrevista ao podcast Economia & Negócios, da TV Agora RN, apresentado pelo jornalista Elias Luz, o presidente do Sindicato da Indústria da Extração de Sal do Rio Grande do Norte (Siesal-RN) e diretor da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), Airton Torres, afirmou que o setor vive um período de forte pressão desde que o governo norte-americano passou a aplicar tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.

Segundo ele, a primeira medida foi adotada em julho do ano passado, quando os Estados Unidos anunciaram uma tarifa de 50% sobre diversos produtos brasileiros. A cobrança chegou a ser derrubada pela Suprema Corte norte-americana, mas uma nova rodada de sobretaxas foi anunciada recentemente. Desta vez, explicou Torres, a tributação passou a ser composta por duas parcelas: uma de 25%, direcionada especificamente ao Brasil, e outra adicional de 12,5%, aplicada também a diversos outros países.
Na avaliação do dirigente, a justificativa apresentada pelo governo norte-americano para parte dessas tarifas não corresponde à realidade do setor produtivo brasileiro. “Nós entendemos que os 25% foram aplicados especificamente ao Brasil por entender o governo americano que o País tem práticas comerciais prejudiciais aos Estados Unidos. Já os 12,5% foram aplicados também a outros países sob a alegação de trabalho forçado, o que não é verdade”, disse.
O impacto foi imediato sobre um setor que historicamente mantém forte dependência do mercado americano. Antes da imposição das tarifas, o Brasil exportava aproximadamente 530 mil toneladas de sal por ano para os Estados Unidos, volume equivalente a cerca de 47% de todas as exportações brasileiras do produto. Segundo Airton Torres, as vendas não foram interrompidas completamente, mas passaram a ocorrer apenas de forma pontual. “Depois do tarifaço, algumas exportações continuam sendo feitas, mas apenas de maneira pontual, sem contratos de médio e longo prazo”, reforçou.
A dificuldade decorre da perda de competitividade diante de outros fornecedores internacionais. Com o aumento dos custos de importação do sal brasileiro, compradores norte-americanos passaram a recorrer a mercados como México, Chile, Canadá e Egito. Embora o setor tenha buscado alternativas, as possibilidades de diversificação são limitadas. O presidente do Siesal explica que o sal possui baixo valor agregado, característica que restringe economicamente o transporte para longas distâncias. “Nós somos um produto regionalizado. Nossa área competitiva está limitada ao oeste da África, aos Estados Unidos e a uma pequena parcela do mercado canadense. Fora dessa região, o sal deixa de ser competitivo”, explicou.
A consequência direta foi o aumento da oferta no mercado interno. Como o produto não é perecível, a produção continua sendo realizada normalmente e o excedente passou a disputar espaço dentro do País. “O Brasil continua produzindo cerca de 6 milhões de toneladas de sal por ano. O que deixa de ser exportado passa a ser ofertado no mercado interno”, afirmou.
Apesar das dificuldades comerciais, o setor preservou o nível de produção. A preocupação agora está na manutenção da atividade econômica e dos empregos. De acordo com Airton Torres, a indústria salineira gera aproximadamente 5 mil empregos diretos apenas nas salinas. Considerando toda a cadeia produtiva — transporte rodoviário, navegação, comercialização e serviços terceirizados — esse número chega perto de 15 mil postos de trabalho.
As empresas estão concentradas principalmente nos municípios de Grossos, Areia Branca, Mossoró, Porto do Mangue, Macau, Guamaré e Galinhos, formando o principal polo salineiro do País. Para minimizar os impactos econômicos, o Governo do Rio Grande do Norte criou incentivos dentro do Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial (Proedi). Segundo Torres, a medida tem contribuído para reduzir parte das perdas enfrentadas pelas empresas. “Houve sensibilidade do Governo do Estado, que criou um incentivo adicional dentro do Proedi para ajudar a preservar os empregos”, acrescentou.
O dirigente também informou que o Governo Federal estuda linhas de financiamento com juros subsidiados para empresas exportadoras afetadas pelas barreiras comerciais. Paralelamente à busca por soluções imediatas, a indústria acompanha uma oportunidade que poderá alterar o perfil do setor nos próximos anos: a utilização do sódio na fabricação de baterias para armazenamento de energia elétrica.
O avanço das fontes renováveis, especialmente da energia eólica e solar, aumentou mundialmente a demanda por sistemas capazes de armazenar eletricidade produzida em períodos de maior geração para utilização posterior. Nesse contexto, as baterias à base de sódio aparecem como alternativa às tradicionais baterias de lítio, com expectativa de custos menores e menor dependência de minerais considerados estratégicos.
Airton Torres considera que essa poderá ser uma nova aplicação para a produção salineira, mas reconhece que o segmento ainda depende do desenvolvimento tecnológico nacional. “As baterias de sódio podem representar uma nova aplicação para a indústria salineira. Mas nós não temos esse conhecimento nem essa tecnologia”, frisou Torreds.
Segundo ele, o setor iniciou articulações com o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), sediado em Macaíba, que reúne instituições como Fiern, Fecomércio, Sebrae e Governo do Estado para desenvolver soluções voltadas à inovação industrial. A entidade apresentará aos empresários salineiros estudos sobre o tema ainda neste mês. “O parque existe justamente para desenvolver novas tecnologias em favor da indústria. Vamos conhecer quais são as possibilidades de ingressarmos nesse novo mercado”, detacou Torres.
Embora considere o projeto ainda em estágio inicial, Torres avalia que o armazenamento de energia será uma atividade cada vez mais presente na economia brasileira. “Guardar energia para utilizá-la posteriormente já é uma realidade em vários países. Isso vai acontecer também no Rio Grande do Norte”, prevê. Na avaliação do dirigente, a consolidação dessa cadeia produtiva dependerá da criação de tecnologia nacional capaz de reduzir a dependência de patentes estrangeiras e estimular novos investimentos.
Ao mesmo tempo, ele acompanha as discussões sobre a atualização da legislação ambiental estadual, atualmente em análise na Assembleia Legislativa. Para o setor produtivo, a revisão das normas poderá influenciar diretamente a atração de novos empreendimentos industriais, incluindo projetos ligados ao armazenamento de energia e à instalação de data centers. Enquanto essas oportunidades ainda estão em construção, a prioridade continua sendo recuperar o acesso ao mercado norte-americano. O setor trabalha em conjunto com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fiern e governos estadual e federal para incluir o sal entre os produtos que poderão ser isentos das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Segundo Airton Torres, outros segmentos potiguares já obtiveram esse reconhecimento. “Nós estávamos nessa situação junto com o setor do pescado. Agora eles conseguiram entrar na lista das isenções. Temos esperança de que o esforço conjunto também permita incluir o sal”, espera Torres. Para o dirigente, a indústria salineira atravessa um momento de transição. Enquanto busca recuperar um mercado responsável por quase metade das exportações do produto, o setor começa a olhar para uma atividade de maior valor agregado, capaz de reduzir a dependência exclusiva da produção tradicional e inserir o Rio Grande do Norte em uma cadeia industrial ligada à transição energética.