A psiquiatra Adriane Caldas afirmou que o suicídio pode ser prevenido e que a identificação de sinais de depressão é um dos principais caminhos para evitar tentativas. Segundo a médica, a maior parte das tentativas de suicídio está associada a transtornos depressivos.
“É possível prevenir e o mais importante é a gente identificar qual é o transtorno que está relacionado ao suicídio, porque a gente sabe que a maior parte das tentativas de suicídio e do suicídio está relacionado com os quadros depressivos”, afirmou, em entrevista à rádio Jovem Pan Natal.

Ela explicou que alguns sintomas podem indicar um quadro depressivo, principalmente quando persistem por um período prolongado. “A pessoa tem humor triste quase todos os dias. Não é assim: ‘ah, eu passei por um problema e hoje eu estou triste ou deprimida’. Não. Tem que ser pelo menos duas semanas nesse quadro mais constante de humor triste. Falta de prazer com coisas que essa pessoa gostava de fazer”, disse.
Outros sinais citados pela psiquiatra incluem alterações no sono e no apetite, além de pensamentos relacionados à morte. “Tem alterações do sono, diminuição da necessidade de sono, ou dormindo demais, ou alimento, comendo demais ou comendo de menos também. Ideias de morte podem surgir, porque nesse momento de muita angústia, de muita aflição, surgem essas ideias como uma forma de aliviar aquele sofrimento”.
De acordo com Adriane Caldas, quando surgem pensamentos sobre suicídio, é fundamental buscar ajuda. “Quando surgir essas ideias de suicídio, você poder conversar, me pedir ajuda. Seja através de um amigo, um familiar que você confie, que você pode estar aberto e pedir ajuda”.

A médica também destacou que o tema ainda enfrenta resistência social. “O que a gente sabe, Ana Ruth, é que falar sobre esse tema é um tabu muito grande”, afirmou. Ela acrescentou que, embora a discussão sobre saúde mental tenha avançado nos últimos anos, o preconceito ainda existe. “Eu recebo todos os dias pacientes que relutam muito pra ir ao consultório. Muitas vezes, assim, já está num quadro mais grave, porque tem esse preconceito. A própria família tem esse preconceito”.
Durante a entrevista, a psiquiatra explicou que mudanças no comportamento também podem ser sinais de alerta. “Aquela pessoa que, de repente, é uma pessoa que é mais comunicativa, é mais alegre, mais extrovertida. Daqui a pouco, ela fica mais isolada, ela não quer estar mais se relacionando com os amigos, não quer estar saindo mais com os amigos, não está mais se relacionando com os familiares”, disse.
Ela afirmou ainda que o quadro pode incluir irritabilidade, dificuldades cognitivas e perda de energia. “Falhas de memória, dificuldade de concentração, dificuldade de atenção. Lentificação dos movimentos também. Aquela pessoa que anda, mas, assim, anda já com mais dificuldade. E uma falta de energia muito grande. Acorda, parece que tem um peso, uma dificuldade de se levantar”.
Segundo Adriane Caldas, observar mudanças de comportamento no ambiente familiar, profissional ou acadêmico pode ajudar na identificação do problema. “De repente, ela é uma pessoa super produtiva no trabalho, uma pessoa que tem um rendimento diferenciado, ela começa a ter erros no trabalho, ou começa a não entregar aquelas atividades”.
A médica explicou que nem todo quadro de tristeza indica depressão, podendo estar relacionado a mudanças na vida. “Muitas vezes, a pessoa está passando por o que a gente chama de transtorno de adaptação, transtorno de ajustamento. Ela está numa fase de mudança de vida, e ela fica mais triste, ela fica mais ansiosa”.
Nesses casos, o encaminhamento para acompanhamento profissional pode ajudar. “Sugerir, encaminhar, essa pessoa dizer, por que você não procura ajuda de um profissional especializado em saúde mental? Um psicólogo ou um psiquiatra?”
Ela destacou que situações em que a pessoa manifesta pensamentos de morte exigem atenção imediata. “De repente, essa pessoa está dizendo, sinalizando para você, se abriu, está dizendo que está com ideias ruins na cabeça, que já pensou como fazer isso. Aí, é um sinal muito de alerta”.
A psiquiatra também ressaltou que ouvir quem está em sofrimento pode ser um passo importante. Segundo ela, o tratamento pode incluir antidepressivos, terapia e mudanças no estilo de vida. “Com o tratamento, com o uso do antidepressivo, e com a terapia, e com mudança do estilo de vida também, essa pessoa, depois de uns 15 dias, que é quando o antidepressivo começa a agir, essa pessoa vai retomando a vida dela”.
Adriane Caldas alertou ainda para o início do tratamento com antidepressivos, período que exige atenção da família. “Na bula dos medicamentos, dos antidepressivos, diz o cuidado que a pessoa tem que ter do risco de suicídio na fase inicial do tratamento para a depressão”.
Isso ocorre porque o medicamento pode restabelecer a energia antes da melhora do humor. “O antidepressivo, como ele demora a melhorar a parte do humor, demora em torno dos 15 dias para ter uma resposta, mas a pessoa já melhora mais a avolição, que é a vontade. Então, de repente, essa pessoa, ela ainda pode ter essas ideações suicidas, e ela está agora com mais energia para poder fazer isso”.
Por esse motivo, ela recomenda vigilância familiar. “Tem que ter esse cuidado redobrado da família, ter cuidado de não deixar próximo dessa pessoa medicamentos e objetos perfurocortantes”.
Em casos de risco elevado, pode ser necessário atendimento emergencial. “Muitas vezes, se essa ideação estiver muito fixa e tiver um risco muito alto para suicídio, essa pessoa tem que ser, muitas vezes, encaminhada para uma internação psiquiátrica, mesmo, pelo risco de vida”.