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Tradição

“Quinta que te quero samba”: conheça o projeto que marca a noite natalense

Evento ocorre em todas as quintas-feiras no Beco da Lama, no centro histórico da cidade
Carol Medeiros
24/09/2022 | 07:00

As noites das quintas-feiras em Natal já são um marco na história do samba local. Para além das paredes e bares, a música é a principal atração do Beco da Lama, no centro histórico da cidade. Com um diversificado repertório cultural, o projeto “Quinta que te quero Samba” é Patrimônio Cultural Imaterial do município desde 2019. O movimento de rua envolve um público heterogêneo há mais de 13 anos, que tem como destino o tradicional Bar de Nazaré e adjacências.

O Beco é um ambiente onde ecoam os mais autênticos ritmos de sambas, batuques de terreiro e um toque de jongo – dança de origem africana – que resgatam a cultura afro-brasileira, além de valorizar trabalhos autorais dos sambistas potiguares, mostrando a resistência nas ruas da capital.

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Batuque de Um Povo lidera as rodas. Foto: Carol Medeiros

O movimento “Quinta que te quero samba” é o maior projeto popular e gratuito da cidade. O evento que acontece “religiosamente” às quintas é comandado pelo grupo Batuque de um Povo, roda de amigos sambistas que existe desde 2016. É nas vielas estreitas do centro que os frequentadores sentem a energia da tradicional roda ao escutar o “Batuque de um Povo” cantando “viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar, e cantar, e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz…”.

Desde 1994, a organização SAMBA (Sociedade dos Amigos e Amigas do Beco da Lama e Adjacências) tem contribuído para transformar Natal em um polo cultural. É ela a responsável por promover ações culturais e gastronômicas no Beco da Lama.

A motivação para o projeto foi juntar grupos de pessoas com todas as suas multiplicidades, como conta uma das diretoras da SAMBA, Cristina Tapuia, professora de arte e teatro e indígena da etnia Tapuia do RN. “A gente sempre se junta, então se juntar é festa e como o Centro, Rocas, Alecrim e Mãe Luiza são berços do samba potiguar, todo mundo está aqui. É um reduto boêmio e intelectual”, ressaltou.

Tapuia evidencia a importância do samba do Beco para a cultura natalense. “Essas pessoas são a história e cultura também do Rio Grande do Norte. É preciso enaltecer nossa cultura. Por exemplo, Rocas e Mãe Luiza têm mestres e mestras da cultura local, nas Rocas tem o ‘Araruna’, que é uma sociedade que trabalha com danças antigas e semidesaparecidas da cultura popular, que tem como fundador o Mestre Cornélio. Há essa relevância. Eu não gosto muito da palavra preservação, então vou usar ‘continuidade’”, pontuou a professora.

O também professor de arte, Túlio César, frequenta o samba de Nazaré há pelo menos 5 anos e reforça que o movimento já é tradição na cidade, por ser um dos espaços mais democráticos onde o acesso é livre e quem quer chegar, chega. O samba tem localização acessível e alimenta o mercado informal, sem falar que as figuras por lá são as que fazem o samba da cidade. “O Batuque de um Povo faz parte das escolas de samba, é ligado às agremiações, é inegável a importância dele para manutenção da cultura no nosso estado. É uma falácia essa história de que Natal não tem cultura, nós temos”, explicou.

Túlio diz que frequenta mais o samba do que outros lugares da capital potiguar porque considera esse um dos espaços mais populares. “Eu por exemplo moro na Zona Norte mas vou curtir o samba, você encontra pessoas de outros lugares, jovens universitários, a velha guarda também está presente, e até famílias. Eu mesmo, às vezes, trago meu filho comigo para já ir ensinando a ele. Então eu acho que é um dos espaços mais relevantes de Natal”.

Nas andanças pelo Beco, a reportagem da Cultue encontrou uma turista, a carioca Lucimar Fernandes, de 54 anos, que disse não ser a primeira que visita o samba. Para ela, os músicos de excelente qualidade e o ambiente muito acolhedor e alegre são destaques. A carioca declarou que se tem se divertido muito no samba de Nazaré e que vê uma proximidade muito grande entre o Rio de Janeiro e Natal.

“O samba aqui em Natal também é muito forte, o que me surpreendeu quando vim para cá, porque em cada barzinho que você anda tem uma roda de samba, não é só aqui não é só aqui no Beco, mas claro, aqui é muito mais democrático, popular, não precisa pagar nada. Isso é incrível, acho maravilhoso para a cultura local, porque possibilita essa integração das pessoas, com essa alegria contagiante”, relatou ela.

Já o ex-militar que hoje trabalha com dança de salão, Luslan de Oliveira, de 70 anos, não tem certeza sobre o tempo exato em que frequenta o samba, mas estima que seja mais de 10 anos, desde quando estava na Praça André de Albuquerque, conhecida como Praça Vermelha, com o antigo grupo de samba Arquivo Vivo. Mesmo indo a outros lugares de lazer e curtindo de tudo, Luslan diz que o samba fala mais alto. “O samba está na veia, então não tem como fugir”.

O dançarino afirmou que o samba no Beco da Lama é detalhe que só faz somar na cultura de Natal, porque, para ele, é um bom samba em um ambiente eclético. “O samba tem esse fundamento que é unir as pessoas e isso para mim é muito importante, a união, brincar pela música, pelo samba”, destacou.

Revitalização

Antes de 2019, quem passava pelo Beco da Lama, reduto boêmio de Natal, não encontrava os grafites nos muros – que vão desde um boi maranhense adornado de fitas dançantes até a imagem de Câmara Cascudo. Isso porque foi neste ano que o local passou por uma grande revitalização.

Além dos grafites, foram realizados serviços de recuperação de ruas e calçadas, iluminação, saneamento e limpeza, tornando o Beco hoje um dos lugares mais procurados por turistas e moradores locais. A galeria a céu aberto conta com painéis de grafite realizados pelo renomado Dicesarlove e por mais de 50 artistas locais, como Miguel Carcará, levando efervescência para a noite natalense.

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Beco da Lama passou por reformas. Foto: Jussier Lucas