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Cultue

Pinacoteca celebra legado e futuro das artes visuais no RN com a mostra “Feito Potiguar”

Mostra impulsiona resgate da memória local ao reunir peças de artistas que moldaram a identidade visual norte-riograndense
Nathallya Macedo
26/09/2025 | 08:42

As artes visuais potiguares sempre oscilaram entre a tradição e a ousadia, construindo um percurso que vai do pioneirismo de Abraham Palatnik, reconhecido mundialmente como mestre da arte cinética, até os grafites e experimentações digitais da nova geração. Essa linha do tempo, que une figuras históricas e artistas emergentes, está em evidência na mostra “Feito Potiguar: Identidade e Memória das Artes Visuais do RN“, que estreia nesta sexta-feira 26 na Pinacoteca do Estado, reaberta em 2021 após restauro. 

Nesta mostra, são revisitados o trabalho de 51 mestres in memoriam que, com sensibilidade e técnica, transformaram o cotidiano em poesia. De Joaquim Fabrício a Dorian Gray, Xico Santeiro a Newton Navarro, a diversidade de estilos é celebrada na coletânea. Também serão homenageados dois grandes nomes que partiram recentemente: Célia Albuquerque e Vatenor, o “pintor dos cajus”.

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Nesta mostra, são revisitados o trabalho de 51 mestres in memoriam que, com sensibilidade e técnica, transformaram o cotidiano em poesia. Foto: José Aldenir / Agora RN

O curador Manoel Onofre Neto revelou que o processo de curadoria foi minucioso e apaixonante. “Com um acervo tão vasto quanto o da Pinacoteca do Estado, a pesquisa se torna afetiva. Buscamos obras que pudessem narrar a construção da nossa identidade visual e priorizamos peças que, embora muitas vezes não sejam as mais conhecidas do grande público, são fundamentais para entender a evolução do olhar sobre a nossa terra. A mostra foi complementada com obras de colecionadores que as cederam gentilmente e obras da minha própria coleção”.

Segundo ele, a principal contribuição da mostra é dar forma a uma narrativa contínua das artes visuais do Rio Grande do Norte. “Muitos dos nossos artistas são conhecidos individualmente, mas a mostra os coloca em diálogo, revelando como a identidade visual potiguar foi construída em um processo coletivo e contínuo. É a oportunidade de apresentar esse patrimônio de forma organizada e didática, permitindo que as novas gerações se apropriem dessa história, e se inspirem com ela”, explicou.  

A exposição será dividida em quatro módulos temáticos, com obras que datam do fim do século XIX em diante e representam a singularidade do RN. São elas:

• “Poética Fundante”, com paisagens que vão do litoral ao sertão, registros dos casarios históricos, dos trabalhadores do campo e da pesca, e das figura populares;
• “Cascudo, as Tradições e o Folclore”, com obras que celebram as festas populares e os ritos de fé, devoção e misticismo que permeiam o cotidiano do povo potiguar;
• “Natureza Viva”, que tem como fio condutor a exuberância da flora e fauna potiguar, com destaque para o caju, símbolo maior do RN;
• “Feito Feminino”, núcleo que faz um tributo às mulheres potiguares que ousaram romper barreiras e construir um caminho significativo no cenário das artes visuais.

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Curador Manoel Onofre Neto. Foto: José Aldenir / Agora RN

Entre os núcleos, o curador destaca o “Feito Feminino”, que reúne trabalhos de pioneiras como Marieta Lima, Zaira Caldas e Célia Albuquerque. Para ele, a valorização dessas trajetórias é também um convite à reflexão sobre o papel das artistas na história potiguar. A mostra também incorpora tecnologia no resgate de memórias. 

Elementos como o sertão, o litoral, o caju e o folclore revelam a profunda conexão dos artistas locais com o território. “O sertão nos fala de resiliência e de uma beleza singular; o litoral nos remete à leveza e à vastidão; o caju, em sua forma e sabor, representa a nossa singularidade; e o folclore expressa a fé, a alegria e a sabedoria do nosso povo. Na arte, eles não são apenas elementos visuais, mas portadores de significado”.

Palatnik ocupa lugar simbólico na exposição. “Sua trajetória prova que a genialidade pode nascer em qualquer lugar e que a vanguarda pode ter raízes em Natal”, disse Manoel Onofre Neto. Ele recorda que há registros de que algumas obras do artista foram inspiradas nas dunas potiguares. “Sua presença nos lembra que a arte do RN tem um potencial universal e que a ousadia e a inovação sempre fizeram parte de nossa história”.

Uma das novidades é o uso de Inteligência Artificial para resgatar uma obra de Joaquim Fabrício. “O uso de IA demonstra que a tecnologia não é uma ameaça à tradição, mas sim uma ferramenta poderosa para a sua preservação e difusão”, avalia Onofre. “É a prova de que podemos utilizar o que há de mais moderno para honrar e perpetuar o legado do passado”.

Visibilidade

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Exposição começa nesta sexta-feira 26. Foto: José Aldenir / Agora RN

A visibilidade dos artistas contemporâneos depende de um sistema de arte forte. É fundamental o investimento em residências artísticas, feiras e salões de arte que permitam a troca de experiências e a projeção nacional. Manoel Onofre Neto cita o fomento à formação de curadores e críticos de arte locais como crucial para que a produção seja analisada e contextualizada. 

“A digitalização de acervos e a criação de plataformas online também facilitam o acesso e a pesquisa. Por fim, o diálogo e a parceria entre as instituições culturais, o setor privado e o poder público, reforçado pelo programa ‘Feito Potiguar’, são essenciais para que o talento dos nossos artistas encontre o palco que merece. A aliança entre o Sebrae e o Conselho Estadual de Cultura, com o objetivo de viabilizar esta mostra, e com o apoio da Pinacoteca, através da Fundação José Augusto, é um grande exemplo dessa colaboração”, observou.

Alma potiguar

Newton Navarro e Dorian Gray foram desbravadores, os grandes nomes do modernismo potiguar, juntamente com Ivon Rodrigues e Erasmo Xavier. De acordo com Manoel Onofre Neto, eles romperam com o academicismo e trouxeram uma nova forma de olhar e representar a realidade. 

“Newton, com seu traço livre e espontâneo, capturou a essência do nosso povo de maneira visceral. Dorian, com sua técnica apurada e seu olhar agudo para o cotidiano, traduziu em cores e formas a alma da nossa gente. Juntos, eles contribuíram de forma decisiva para a construção de uma linguagem visual que é inconfundivelmente potiguar”.

A mostra busca inspirar novos criadores. “Ela demonstra que os temas do nosso cotidiano são fontes inesgotáveis de criatividade”, apontou o curador. Uma exposição deste porte, em um espaço público tão significativo como a Pinacoteca, envia uma mensagem clara ao poder público e à sociedade. 

“Demonstra a importância do acervo, a riqueza do nosso patrimônio artístico e a necessidade de investimentos contínuos em sua preservação, catalogação e difusão. Ao atrair a atenção da mídia, do público e de outras instituições, a mostra fortalece a pauta da cultura e da arte, incentivando a criação de políticas públicas mais robustas para o setor”, frisou ele.