Em meio ao turbilhão de emoções que é uma sala de parto, existe um profissional responsável por captar, com a mais absoluta sensibilidade, cada lágrima, cada sorriso e cada choro — seja ele do bebê ou dos pais. Paula Galvão e Mariana Rocha compartilham a mesma paixão pela fotografia de parto e ambas decidiram começar a registrar esse momento tão especial e único depois de se tornarem mães.
Paula deu à luz sua filha Ingrid em 2001, em pleno sábado de Carnaval, e foi seu pai, Fred, que também é fotógrafo, quem teve a ideia de registrar o momento. “Ele entrou no meu parto sem eu saber, porque naquela época só tinha direito a um acompanhante e não existiam fotos de parto. E aí ele, como avô, entrou e fotografou o nascimento da minha filha, e para mim foi uma emoção muito grande ver esse momento”.

Ela, que já trabalhava fotografando eventos, acabou ficando com a ideia de registrar nascimentos na mente e passou a estudar sobre esse mercado, que na época mal existia. Nessa fase, Paula passou a bater à porta dos hospitais para conseguir autorização para realizar os registros. “O pessoal tinha medo de fotografar parto, porque achava que era só sangue. E eu trabalhava através de ofícios, eu mandava para a direção e o hospital me liberava”.
Já Mariana, que também é jornalista, entrou pela primeira vez em uma sala de parto como fotógrafa em 2021 — apenas três meses depois do nascimento do filho Pedro — para registrar o nascimento do bebê de uma amiga. Ela conta que foi capturada pela energia do momento, que aguçou sua sensibilidade. “Sabe quando a gente diz que alguém despertou nossa melhor versão? No caso, foi o que o parto fez comigo”.
Depois disso, Mariana, que já fotografava famílias desde 2014, passou a receber pedidos de orçamento e decidiu incluir esse tipo de cobertura em seu catálogo. “Comecei a estudar o ramo, fiz cursos, me especializei e fui só crescendo desde então”.

O registro de parto se diferencia dos demais por uma série de fatores. Paula conta que o trabalho não pode ser dirigido, sendo totalmente fotojornalístico. Ela destaca que a forma de se comportar no centro cirúrgico é importante e que o profissional não pode intervir. “Eu não posso interferir no que está acontecendo ali, porque por trás de mim tem a equipe médica e o hospital, que têm suas regras e suas condutas, que não podem ser modificadas naquele momento”.
Mariana explica que é preciso entender e respeitar o processo do corpo da mãe, dos profissionais envolvidos no parto, além das regras a serem cumpridas. “Ali, eu sou os olhos da mãe — a mulher, muitas vezes, pela ocitocina, perde a noção de como tudo aconteceu — e serão as fotos que farão ela enxergar como aquela criança chegou ao mundo. É uma fotografia documental, e eu gosto de imprimir um olhar poético e sereno sobre esse instante extraordinário da vida”.
É necessária sensibilidade para capturar com precisão um momento tão delicado e importante na vida de uma mãe, um instante que ficará guardado eternamente na memória daquela família, e, para isso, o olhar precisa estar atento e acolhedor. Assim como Mariana, Paula reforça que a fotógrafa de parto são os olhos da mãe naquele momento envolto em tanta emoção; são alguns minutos da vida de alguém que ficarão eternizados através de imagens.
“Para captar todos aqueles instantes que vão emocionar, é necessário ter um olhar muito preciso e apurado do que registrar, sem fugir da ética da conduta médica nem da conduta do hospital, e entregar um trabalho 100% fidedigno àquele instante, mostrando a emoção bonita do momento”, explicou Paula.
Mariana conta que procura capturar os detalhes dos instantes, os microgestos e a conexão dos pais sob um olhar mais doce e romântico do momento. Ela pontua que, apesar do que parece, nenhum parto é igual e que cada história é única. “E meu papel ali é decifrar esses sentimentos, unindo-os aos meus, para chegar a um resultado feliz”.
O trabalho do fotógrafo de parto começa bem antes do dia do nascimento. O profissional precisa estar de sobreaviso, atento, com todo o material pronto e organizado caso precise correr para o hospital. Na reta final, o profissional mantém contato direto com a grávida para acompanhar cada sinal de trabalho de parto.
“Peço que me enviem notícias das ultrassons, consultas, para que eu consiga acompanhar junto com ela a aproximação do parto. Mas 99% das vezes é uma caixinha de surpresas”, contou Mariana.
Paula explica que, nesse momento, a principal preocupação deve ser ter o melhor instante registrado, então, pela espontaneidade da situação, é preciso atenção redobrada. Ela conta que a experiência é fundamental para que os momentos certos sejam registrados. A fotógrafa reforça que a qualidade é mais importante do que a quantidade. “Não adianta eu fazer mil registros e não ter uma imagem que tenha impacto sobre a emoção daquela família”.
O olhar materno
A maternidade ajuda a apurar o olhar das fotógrafas sobre o momento. É impossível testemunhar tantos nascimentos e não relembrar o dia do próprio parto. Paula relata que ser mãe muda tudo na hora de fotografar. Ela explica que não entra no centro cirúrgico apenas como profissional, mas também como mãe. “Existe o apoio emocional, existe o apoio moral e existe a emoção sentida igual. Muitas vezes eu choro com a emoção daquela família, eu me envolvo emocionalmente, eu me empenho muito mais além do normal”.
Mariana também relata o quanto a maternidade impacta em seu trabalho. Ela conta que consegue se ver naquelas mulheres, pois já passou por tudo aquilo, por todas as dores e anseios do parto. Para ela, ser mãe dá um “plus” na sensibilidade e, ao mesmo tempo, aumenta o “peso” da responsabilidade.
“Eu faço por elas o que gostaria que tivessem feito por mim. Eu sei o que importa, o que eu gostaria de ver e ouvir em ‘repeat’ do dia que considero o mais importante e incrível da minha vida. Eu olho para os bebês e lembro do meu filho”, frisou Mariana.

Ainda segundo Mariana, a fotografia de parto revela muito sobre a maternidade, tornando-se parte de um movimento de empoderamento da mulher. “Com o material que entregamos, elas se veem de uma forma que não veriam. Elas compartilham, falam para as outras, inspiram, se emocionam. Eu confesso que a fotografia de parto é mais do que uma cobertura documental do nascimento em si. É uma ferramenta de transformação”.
Paula relata que sai da sala parto totalmente “eletrizada”, com a adrenalina lá em cima, depois de vivenciar tantas emoções. Ela pontua ainda como o seu trabalho impactou o que vemos hoje em dia nos registros de nascimento. “Então, a fotografia de parto, sob o meu olhar, mudou muito, porque eu criei ali situações que não existiam, de mostrar a família. Não tinha isso. A foto do pezinho que o pai beija, não tinha. A foto dos três (pais e filho), não tinha”.

Após testemunhar tantos nascimentos, as profissionais ainda se emocionam com o que veem: um encontro único e muito esperado. Para elas, o verdadeiro significado do Dia das Mães é o amor incondicional que se apresenta ali.
Mariana Rocha
Mariana Rocha é formada em Jornalismo e começou a fotografar partos em 2021, quando se tornou mãe. Atualmente, ela tem 42 fotos premiadas internacionalmente por diferentes associações de fotógrafos do mundo: a Inspiration Photographers, o Outstanding Award e a FineArt Association. Foi indicada em 2024 e 2025 ao Golden Lens Awards, o Lente de Ouro — considerado o Oscar da Fotografia mundial. Hoje, ela está entre os 20 melhores fotógrafos de família do Brasil.
Paula Galvão
Paula Galvão é fotógrafa, autora e empresária. É pioneira no nicho da fotografia de parto no Brasil e no mundo, especializando-se no segmento desde 2004. Desde então, já registrou quase 4 mil nascimentos. Conquistou 55 fotos premiadas e foi indicada ao prêmio de Fotógrafa Revelação no Oscar da Fotografia, em 2019. É autora do livro Retrato da Vida.