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Pandemia
O que um astronauta tem a nos ensinar sobre isolamento social por longo período
New York Times conversou com essas pessoas para ouvir conselhos sobre como viver sob isolamento prolongado – e como lidar com a ideia de não conseguir ver a luz no fim do túnel
The New York Times
03/12/2020 | 22:00

Os casos de covid-19 estão aumentando e o inverno no hemisfério norte vai cortar muitas das linhas vitais – piqueniques no parque, corridas ao ar livre, jantares fora de casa – das quais tantas pessoas dependeram para manter a sanidade este ano. As vacinas estão no horizonte, mas mesmo os prazos mais otimistas dizem que elas ainda vão demorar uns meses. E o tempo com a família durante as festas de fim de ano, em geral um ponto positivo nos meses de inverno do hemisfério norte, está praticamente cancelado.

Mas existem maneiras de se preparar para esse conjunto tão sombrio de circunstâncias. Na verdade, algumas pessoas já passaram por tudo isso e muito mais.

Pense, por exemplo, na astronauta que passou quase um ano no espaço. Ou no chefe da estação de um posto avançado de pesquisas na Antártida. Ou numa das oito pessoas isoladas dentro do ecossistema artificial Biosfera 2 por dois anos no início da década de 1990.

New York Times conversou com essas pessoas para ouvir conselhos sobre como viver sob isolamento prolongado – e como lidar com a ideia de não conseguir ver a luz no fim do túnel.

Se há uma lição, é esta: adaptação e gerenciamento de expectativas são fundamentais. 

Só algumas centenas de quilômetros de distância, mas um mundo à parte

Por 328 dias, entre março de 2019 e fevereiro de 2020, a astronauta da NASA Christina Koch estava flutuando a 400 quilômetros acima da Terra, a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), estabelecendo o recorde para o mais longo tempo contínuo que uma mulher passou no espaço. Astronauta desde 2013, Koch, de 41 anos, foi treinada para lidar com o isolamento de longo prazo e as circunstâncias em constante mudança, mas não há exatamente um treinamento sobre o que fazer quando o mundo para o qual você volta está totalmente diferente daquele que você deixou.

Mas isso não quer dizer que ela não estivesse preparada.

“Uma das qualidades que os astronautas desenvolvem é a adaptabilidade e o gerenciamento de expectativas”, disse Koch. “E acho que realmente aprimoramos a habilidade de estarmos bem com o que quer que apareça no caminho, só adaptando nossas esperanças e sonhos à nossa situação e tirando o melhor proveito disso”.

Enquanto estava a bordo da ISS, Koch e seus companheiros de tripulação assistiram à chegada dos primeiros dias da pandemia, mas não sabiam o quão profundamente as coisas iriam mudar.

Ela voltou à Terra em fevereiro, mas, quando estava terminando a reabilitação física e pronta para embarcar nos muitos planos que havia feito, Koch teve de trocar um tipo de isolamento por outro. “Bem quando eu estava pronta para voltar ao mundo, ele se fechou de novo”, disse ela.

Que fique claro: ficar preso em casa, com todos os confortos – e as entregas em domicílio – a que estamos acostumados, não é exatamente uma comparação justa com passar quase um ano no espaço. Mas muitas das emoções e feridas psicológicas com as quais estamos lidando agora se assemelham às experiências dos astronautas no espaço, disse Koch. E as estratégias e táticas para lidar com essas experiências podem ser bastante transferíveis.

Por exemplo: Koch disse que aprender a aceitar e a ficar confortável com a imprevisibilidade é uma coisa que está embutida no treinamento dos astronautas. Durante seu tempo na ISS, disse Koch, havia dias em que ela ia dormir com toda a programação para o dia seguinte na cabeça, mas acordava e tinha de reorganizar tudo. E, mesmo que a programação de um dia não trouxesse nenhuma surpresa, a qualquer momento algo podia dar errado e toda a equipe tinha de se adaptar – uma mentalidade que ela emprega agora que está em quarentena em casa.

“O que você pode controlar é como você reage a essa situação”, disse ela. “O que você pode controlar é se vai se deixar levar por um mau caminho mental ou não”.

Na verdade, enquanto estava na ISS, Koch foi surpreendida por uma extensão de sua missão por cerca de cinco meses. Então, em certo sentido, ela já tinha passado por isso.

“Tive que mudar meu pensamento de ‘é uma maratona, não uma corrida’ para ‘é uma ultramaratona, não uma maratona’”, disse ela. “E fiz a mesma reformulação na pandemia. Quando o lockdown começou, seria uma pausa de duas semanas, mas agora vai durar até a primavera”.

Koch disse que uma habilidade fundamental que ela usa em seu tempo no espaço é aprender como ficar conectada aos entes queridos quando não podemos estar fisicamente presentes. Enquanto estava no espaço, por exemplo, Koch “correu” uma meia maratona no Parque Nacional Glacier com seus amigos; ao mesmo tempo em que eles corriam no percurso, Koch correu os 33 quilômetros em sua esteira espacial.

“Você tem que ser criativa para se manter relevante na vida de seus entes queridos”, disse ela. “E se manter relevante significa que você não pode se comunicar só de vez em quando por e-mail. Você tem que fazer coisas que dão a sensação de que você está perto”.

E quanto a todos aqueles planos que ela tinha guardado? Desta vez, ela só vai esperar para ver.

“Gosto muito de definir as expectativas na minha cabeça para sempre errar pelo lado bom, para ter uma surpresa agradável”, disse ela, “em vez de ficar desapontada”. 

‘Nem todo dia é de sol e pinguim’

Seus dias neste ano provavelmente se pareceram um pouco com os de David Knoff.

Ele se arrasta para fora da cama por volta das 7 da manhã, olha o tempo e toma um café com leite enquanto planeja seu dia. Faz seu trajeto matinal – uma viagem muito curta do local onde dorme até o local onde trabalha – e lê os e-mails por algumas horas antes de participar de reuniões online.

As horas das refeições são sempre as mesmas, e os rostos em volta da mesa de jantar nunca mudam, exceto por um ocasional corte de cabelo radical ou uma barba crescida demais. Para relaxar, ele pode tomar um chá ou uma cerveja e relembrar como era a vida.

Mas há uma diferença fundamental: Knoff vive no lugar mais remoto do planeta – e sua noite mais emocionante dos últimos tempos foi na companhia de pinguins.

Desde novembro de 2019, Knoff lidera uma equipe de 24 pessoas na Estação Davis, um posto avançado de pesquisa permanente na Antártida administrado pela Divisão Antártica Australiana. A temperatura média anual é de 7 graus Celsius negativos e, durante o período mais escuro do inverno, geralmente de maio a julho, há algumas semanas em que a luz do sol simplesmente não aparece.

“A escuridão teve mais impacto sobre o humor e a energia do que muitos de nós esperávamos. Por alguns meses, durante as profundezas do inverno, o sol mal conseguiu aparecer acima do horizonte”, escreveu Knoff, 35 anos, por e-mail.

Para enfrentar um inverno rigoroso, disse Knoff, é importante mudar com o ambiente e se treinar para aprender a tirar o melhor proveito das situações difíceis. “É surpreendente como você consegue se adaptar bem ao ambiente e às condições”, disse ele.

Não muito tempo atrás, Knoff se viu inesperadamente isolado numa cabana de campo por quatro noites, com outro membro da expedição, depois que uma nevasca ficou muito forte e muito rápida e seu veículo quebrou. Preso lá dentro, sem nada para fazer a não ser esperar a tempestade passar, ele se agarrou a uma coleção de literatura dos anos 1970 deixada na cabana desde muito tempo. Também cozinhou e tomou chá com seu companheiro de equipe.

“Foi o tempo mais longo que fiquei sem Wi-Fi em anos”, disse ele. Mas, “no fim das contas, vai acabar sendo uma das minhas melhores lembranças do meu tempo aqui, por causa da situação verdadeiramente única de estar isolado do resto da civilização, mas num lugar estranhamente seguro e acolhedor, com pouco para me preocupar além do clima”.

Ainda assim, mesmo um lugar tão isolado quanto a Antártida não ficou totalmente intocado pela pandemia. Embora o continente não tenha confirmado um único caso do vírus, Knoff e sua equipe foram forçados a estender sua estadia por mais quatro meses, o que, disse ele, “trouxe consigo vários desafios e uma montanha-russa emocional”.

“Parece que tínhamos acabado de ganhar o jogo mais difícil que poderíamos ter imaginado na vida, e aí o jogo foi para a prorrogação”, disse ele. O objetivo agora é que todos “olhem dentro de si mesmos para descobrir a motivação e a resiliência para ter certeza de que, como equipe, aproveitaremos ao máximo os próximos meses e voltaremos em segurança para nossos amigos e familiares em casa”, disse ele.

E aquela noite emocionante? Um bando de pinguins-imperadores chegou bamboleando na praia da estação enquanto metade da equipe estava do lado de fora – um bom lembrete de como ver o lado bom junto com o ruim.

“Nem todo dia é de sol e pinguim”, escreveu Knoff por e-mail. “Você vai ter dias / semanas / meses ruins, e os altos e baixos vão oscilar cada vez mais rápido com o passar dos meses. Mas o fundamental é manter o foco no positivo e ter um objetivo em vista”.

Ele acrescentou: “Embora isso nem sempre aconteça durante o inverno da Antártida, o sol sempre nascerá amanhã!”.

Quando a bolha vira uma panela de pressão

Você provavelmente já teve uma ou duas brigas com sua família ou com as pessoas que moram com você durante a quarentena. Mas pelo menos a casa não se dividiu em facções em guerra.

Foi o que aconteceu na Biosfera 2, um ecossistema de 12 mil metros quadrados totalmente fechado e autossustentável no Arizona, no qual oito pessoas viveram isoladas por exatamente dois anos, de setembro de 1991 a setembro de 1993, conduzindo um dos mais ambiciosos – e estranhos – experimentos da história das ciências. (A primeira biosfera, caso você esteja se perguntando, é aquela em que você vive atualmente).

A Biosfera 2 tinha de tudo: cabras-pigmeu, um deserto de névoa, porcos selvagens, galinhas anãs japonesas, uma floresta tropical e… muitos conflitos, de acordo com Jane Poynter, uma das oito pessoas lacradas lá dentro.

“Gostaria de poder contar a vocês que foi uma bela história de sucesso”, disse Poynter, rindo ao se lembrar das facções em guerra. Poynter, que projetou e foi responsável pelo sistema agrícola da Biosfera 2 durante a missão, agora é fundadora e copresidente executiva de uma empresa de turismo espacial chamada Space Perspective.

“Nós nos dividimos em duas facções de quatro e quatro”, disse ela. “Acontece que oito é o pior número que poderíamos ter escolhido, porque você se divide em duas facções de quatro que são muito estáveis”.

Sua teoria para explicar por que as tensões aumentaram tanto? “Quando você fica fechado por um longo período de tempo, você fica cara a cara com você mesmo”.

O bom senso uniu as facções para concluir o trabalho que precisava ser feito, apesar da terrível tensão e do constrangimento, disse Poynter. Nenhum dos oito pensou em abandonar a Biosfera 2, cujo principal financiador era um bilionário do petróleo do Texas, porque eles podiam ver a importância da missão.

Poynter observou outro efeito que afeta qualquer pessoa em isolamento de longo prazo, seja uma astronauta, um pesquisador na Antártida, um biosférico ou apenas um cidadão médio se perguntando quando tudo isso vai acabar: o fenômeno do terceiro trimestre.

Você já sentiu todas essas coisas meses atrás. Você já passou da metade do caminho, mas não está nem perto do fim, e começa a se arrastar. É o chamado “declínio do desempenho durante o terceiro trimestre de missões em ambientes isolados, confinados e extremos, independentemente da verdadeira duração da missão”, de acordo com um estudo de 2018 publicado no Journal of Human Performance in Extreme Environments.

Isso não quer dizer que estejamos necessariamente no terceiro trimestre da pandemia, e as recentes notícias promissoras sobre vacinas nos deram esperança de que o fim pode estar à vista.

“Todos nós vamos sentir que estamos fartos de tudo, e isso é normal”, disse Poynter. “A única coisa que posso dizer é: tenha paciência”.

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