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Série
‘O Gambito da Rainha’ retoma tempo em que enxadristas eram como astros
Fenômeno não se via desde os tempos de Bobby Fischer, Anatoly Karpov, Boris Spassky e Garry Kasparov, que eram íntimos das manchetes de jornais
Estadão
02/12/2020 | 20:20

O verdadeiro xeque-mate de Gambito da Rainha é ter se transformado na série mais vista na Netflix. Pelo que se sabe, o sucesso da série, de Scott Frank e Allan Scott, desencadeou uma verdadeira febre de xadrez mundo afora. Algo que não se via desde os tempos de Bobby Fischer, Anatoly Karpov, Boris Spassky e Garry Kasparov, que eram íntimos das manchetes de jornais e tinham, entre os aficionados, status comparável ao de astros de rock’n’roll.

Estranho, porque, em aparência, nada menos entusiasmante para o grande público que partidas de xadrez, o mais cerebral dos jogos já inventados pelo ser humano. No entanto, a série da Netflix consegue associar elementos bastante díspares em sua fórmula de sucesso e dar-lhe um calor emocional de blockbuster.

Primeiro, a narrativa não destoa muito das manjadas “jornadas do herói”, em que o (no caso a) protagonista parte de uma situação desfavorável, enfrenta desafios extremos e sofre o diabo antes de atingir sua meta.

Por outro lado, especialistas têm afirmado que, das obras dedicadas ao xadrez, Gambito da Rainha é a mais honesta e fiel em relação ao jogo. Não por acaso, pois tem entre seus consultores o ex-campeão mundial Garry Kasparov, enxadrista de estilo agressivo e um dos mais formidáveis jogadores da era moderna.

A história, em sete capítulos, é adaptada do livro homônimo de Walter Tevis (o mesmo de O Homem Que Caiu na Terra) e tem como protagonista Beth Harmon (Anya Taylor-Joy, quando moça), que, ainda criança, num orfanato, aprende a jogar com o zelador da casa. Ao perceber o talento da aluna, o homem lhe dá de presente um manual de aberturas e abre caminho para o aprendizado da futura grande mestre.

A série mostra os bastidores do mundo do xadrez profissional. Dos primeiros torneios universitários aos encontros entre mestres em nível mundial em cidades como Paris ou Moscou. Rivalidades, guerra de egos, maldades – tudo está lá. De quebra, reproduz a verdadeira guerra fria enxadrística travada entre Estados Unidos e União Soviética nos anos 1960 e 1970, época em que os russos dominavam os segredos do tabuleiro e eram hegemônicos campeões mundiais, sem dar chance aos rivais capitalistas.

Nem tudo é perfeito. Parece exagero, para dizer o mínimo, a condição de estrela de Beth em plena União Soviética, com as pessoas aglomerando-se em volta do hotel para pedir-lhe autógrafos. É ignorar o significado e a força do nacionalismo russo. Por outro lado, talvez seja fantasioso, mas é bonito ver uma campeã mundial aceitar o desafio dos enxadristas de rua, apenas pelo prazer do jogo em si. É esse lado, digamos assim, amadorístico, que empresta humanidade mesmo ao mais racional dos jogos.

De todo modo, a série se equilibra bem nesse formato múltiplo. Por um lado, temos a formação da jogadora perfeita; por outro, o surgimento da mulher, imperfeita após enfrentar a infância solitária, a adolescência problemática e o ingresso na idade adulta completamente despreparada para as questões afetivas e sexuais.

Há outros detalhes que emprestam musculatura à trama. Um deles, o relacionamento de Beth e sua mãe adotiva, Alma (Marielle Heller), pianista frustrada e que vê na carreira ascendente da filha a superação da condição subalterna que ela própria não foi capaz de realizar. Por outro lado, Beth às vezes parece uma fortaleza inatingível, mas cresce convivendo com problemas com álcool e remédios. Às vezes parece um monumento prestes a desabar.

Fantasioso em tantos momentos, Gambito da Rainha no entanto traz para o centro do tabuleiro uma verdade universal: é preciso perder para saber ganhar. O processo de amadurecimento se beneficia dos tropeços. Desse modo, a jogadora genial terá de enfrentar uma série de desilusões que quase a fazem desistir, até se sentir pronta para atingir sua meta improvável.

E, claro, Gambito de Rainha também se adapta à sensibilidade do nosso tempo ao colocar como protagonista uma mulher. Sendo que, até hoje, o gênero feminino não encontrou qualquer paridade no machista mundo do xadrez de alto nível.

Esse protagonismo feminino dá todo sabor à série. Fosse um homem o seu personagem principal e não teria a mesma graça. Aliás, talvez não tivesse qualquer graça. Nesse sentido, há que reconhecer a adequação de Anya Taylor-Joy ao papel. Ela parece muito segura de si, como convém a uma pessoa genial. Por outro lado, não esconde sua fragilidade, traço que mescla incerteza numa trama que de outra forma seria previsível.

Sob essas novidades, arde a brasa intemporal do xadrez. O jogo havia meio que saído de moda fazia algumas décadas. Sim, os aficionados continuaram a cultuá-lo. Mas não o grande público. Houve tempo em que todos os jornais tinham suas seções com problemas de xadrez. Eram muito populares. E os encontros entre grandes mestres mereciam cobertura jornalística. Não como a do futebol. Mas não eram ignorados. Hoje, o comum mortal tem de recorrer ao Google para saber o nome do campeão mundial da modalidade.

Mas, na moda ou fora dela, o encanto desse jogo milenar permanece intacto. Utopia da plena racionalidade, jogo de tática e estratégia, e portanto aparentado à guerra, o xadrez sempre encantou os criadores. Stefan Zweig (Novela de Xadrez) e Vladimir Nabokov (A Defesa Lujin) criaram personagens enxadristas. Jorge Luis Borges dedicou ao jogo um notável poema (Ajedrez): “Também o jogador é prisioneiro/ (a frase é de Omar) num outro tabuleiro/ de negras noites e de brancos dias”.

O nosso Machado de Assis cultuou o jogo e o colocou em tramas de sua prosa de matemática precisão. Não é surpresa que, de vez em quando, o xadrez renasça sob forma nova – agora como cultuada série em streaming.

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