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Saúde

Musculação ajuda a prevenir Alzheimer

Estudos associam o treinamento de força à preservação da função cognitiva, da mobilidade e da independência ao longo do envelhecimento
Por O Correio de Hoje
25/06/2026 | 13:47

A musculação vem sendo cada vez mais associada por especialistas à prevenção do Alzheimer e à melhora da qualidade de vida de pessoas que convivem com a doença. Além de contribuir para a manutenção da força muscular e da capacidade funcional ao longo do envelhecimento, pesquisas indicam que o treinamento de força pode favorecer mecanismos biológicos ligados à saúde cerebral e à preservação das funções cognitivas.

O tema ganha relevância diante do aumento da expectativa de vida da população e da busca por estratégias capazes de reduzir fatores de risco associados às demências. Neurologistas, psiquiatras e pesquisadores destacam que a prática regular de exercícios físicos integra hoje as principais recomendações não medicamentosas para prevenção e cuidado de pacientes com Alzheimer.

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Exercícios ajudam a manter mobilidade, equilíbrio e capacidade funcional, fatores importantes para a qualidade de vida de idosos - Foto: magnific

O aposentado Rogério Beck, de 59 anos, é um exemplo dessa abordagem. Diagnosticado com Alzheimer há cerca de dois anos, ele incorporou a atividade física à rotina como parte do tratamento. A corrida deu lugar à musculação, praticada entre três e quatro vezes por semana, com treinos divididos por grupos musculares.

Segundo Rogério, os benefícios são perceptíveis no cotidiano. “Passo o dia meio irritado, acabo dormindo pior”, relata ao descrever os dias em que não consegue manter a rotina de exercícios.

A preocupação com a doença também levou sua esposa, Karin Beck, de 55 anos, a adotar mudanças preventivas. Com histórico familiar de Alzheimer — a mãe morreu em 2004 em decorrência de complicações da enfermidade —, ela passou a investir em atividades físicas voltadas para força, equilíbrio e mobilidade.

Atualmente, Karin pratica pilates duas vezes por semana e acrescentou caminhadas regulares à rotina. Além dos exercícios, modificou hábitos alimentares e adotou uma dieta inspirada no padrão mediterrâneo, baseada no consumo de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite de oliva e peixes, com redução de carnes vermelhas e alimentos ultraprocessados. “Meu objetivo é saúde”, afirma.

Rogério também realiza atividades cognitivas acompanhadas por uma neuropsicóloga. O diagnóstico ocorreu após ele perceber mudanças discretas na memória de curto prazo e dificuldades em tarefas rotineiras que anteriormente executava sem esforço.

De acordo com Paulo Caramelli, neurologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a atividade física, incluindo a musculação, ocupa posição central entre as estratégias de prevenção e tratamento do Alzheimer.

Segundo ele, o sedentarismo figura entre os principais fatores de risco modificáveis para demência, tornando os exercícios físicos uma ferramenta importante para a proteção da saúde cerebral.

Entre os mecanismos biológicos relacionados aos benefícios da musculação, Caramelli destaca a ação das miocinas, substâncias produzidas pelos músculos durante a contração. Essas moléculas entram na corrente sanguínea e podem alcançar o cérebro, onde estimulam a formação de novas conexões entre neurônios.

Além disso, ajudam a preservar a chamada plasticidade cerebral, capacidade do cérebro de se reorganizar, criar novas conexões e adaptar-se às mudanças ao longo da vida. Outro benefício frequentemente citado pelos especialistas é a melhora do metabolismo da glicose, da circulação sanguínea cerebral e a redução de processos inflamatórios associados ao envelhecimento e às doenças neurodegenerativas.

Em pessoas já diagnosticadas com Alzheimer, especialmente naquelas que apresentam sarcopenia — condição caracterizada pela perda de massa muscular —, a musculação pode contribuir para melhorar a mobilidade, reduzir o risco de quedas e retardar a perda da independência funcional.

Embora os estudos ainda não demonstrem de forma conclusiva que o treinamento de força seja capaz de desacelerar diretamente a progressão biológica da doença, os resultados relacionados à funcionalidade e à qualidade de vida são considerados consistentes.

O educador físico e pesquisador Luiz Sinésio Neto, professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) no estado, ressalta a importância do músculo para a saúde geral do organismo. “O músculo é um dos maiores e mais importantes tecidos do corpo humano. O músculo fraco representa doença e, com quantidade e qualidade adequadas, representa saúde”, afirma.

Neto recomenda a adoção do chamado exercício multicomponente, modelo que combina musculação, atividades aeróbicas, exercícios de equilíbrio e práticas voltadas à mobilidade.

A recomendação é respaldada por pesquisas científicas. Um dos estudos mais citados foi publicado em 2015 na revista The Lancet. A pesquisa acompanhou 1.260 pessoas entre 60 e 77 anos consideradas de maior risco para desenvolver Alzheimer.

Os participantes foram submetidos a um programa que combinava treinamento cognitivo, controle de fatores cardiovasculares, musculação, exercícios aeróbicos e atividades voltadas ao equilíbrio e à mobilidade. Após dois anos, os pesquisadores observaram melhora do desempenho cognitivo entre aqueles que participaram da intervenção em comparação ao grupo de controle.

Outra pesquisa, publicada em 2016 no Journal of the American Geriatrics Society, acompanhou cem adultos com comprometimento cognitivo leve durante seis meses. Os resultados mostraram ganhos de força muscular, melhora da capacidade aeróbica e desempenho cognitivo superior após um programa de treinamento resistido de alta intensidade.

As evidências mais recentes também apontam para a relevância da atividade física na prevenção das demências. Um relatório publicado pela comissão da revista The Lancet em 2024 identificou 14 fatores de risco modificáveis associados ao desenvolvimento da doença ao longo da vida.

Entre eles está a inatividade física. O documento conclui que mudanças nesses fatores podem contribuir para reduzir a probabilidade de surgimento de quadros de demência.

Para Arthur Danila, psiquiatra e coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, o objetivo principal da musculação não deve ser apenas o ganho de massa muscular.

Segundo ele, a prioridade é preservar a funcionalidade necessária para atividades simples do cotidiano, como levantar de uma cadeira, subir escadas, caminhar com segurança e manter autonomia por mais tempo. Danila destaca que os benefícios mais bem documentados atualmente estão relacionados à mobilidade, à força muscular, à independência funcional e à qualidade de vida.

“A manutenção da funcionalidade pode contribuir para preservar independência por mais tempo e reduzir o impacto do Alzheimer no cotidiano de pacientes e cuidadores”.

A profissional de educação física Talita Cezareti, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), recomenda que o treinamento de força seja realizado regularmente, entre duas e três vezes por semana, sempre com acompanhamento profissional.

Ela ressalta que a musculação deve integrar um programa mais amplo de cuidados, associado a exercícios aeróbicos, atividades de equilíbrio e hábitos saudáveis.

As diretrizes internacionais recomendam que adultos e idosos realizem pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, distribuídos ao longo da semana. Dentro desse contexto, a musculação aparece como uma das ferramentas mais importantes para preservar a saúde física, a autonomia e o funcionamento cerebral durante o envelhecimento.