Há mais de 80 anos, um movimento silencioso segue ativo, constante e presente em diferentes bairros de Natal. Hoje, são mais de 3 mil mulheres reunidas em torno de uma prática que vai além do templo e alcança casas, hospitais e comunidades inteiras: a oração. Foi essa força que ganhou destaque em sessão solene na Câmara Municipal, onde lideranças religiosas foram homenageadas pelo trabalho contínuo de intercessão e apoio social.
A cena que se repete há décadas foi descrita ao longo da cerimônia: mulheres que saem de casa para visitar enfermos, orar por famílias, levar conforto a quem enfrenta momentos difíceis. Muitas vezes sem visibilidade, sem registro formal, mas com impacto real. “Só sabe o valor da visita quem recebe”, foi lembrado durante a sessão, ao destacar o papel das comissões que percorrem a cidade oferecendo escuta e presença.

O reconhecimento institucional veio acompanhado de um olhar sobre a origem desse trabalho. O Círculo de Oração, que começou há 84 anos, segue ativo e estruturado, atravessando gerações. “Esta obra não é de homem. Esta obra é de Deus”, foi afirmado, como forma de explicar a permanência de uma prática que se renova ao longo do tempo, mesmo com mudanças sociais e políticas.
A homenageada da noite, Irenita Conde da Silva Bulhões, sintetizou esse percurso ao compartilhar sua história. Natural de Recife, chegou a Natal aos 18 anos e construiu aqui sua vida, família e missão. Hoje, após mais de 20 anos à frente da coordenação do Círculo de Oração, lidera milhares de mulheres que mantêm a rotina de encontros e intercessões. “Encontrei mais do que um lugar. Encontrei pertencimento”, disse, ao explicar o vínculo com a cidade e com o trabalho que desenvolve.
Ao longo do evento, a oração foi apresentada como ponto de partida e também como resposta. Não apenas como prática religiosa, mas como instrumento de acolhimento em situações concretas. “Quando a saudade apertava, o medo e a ansiedade me atormentavam, eu buscava abrigo nos braços do meu Deus”, relatou Irenita, ao conectar a experiência pessoal com a atuação coletiva.
Esse movimento se sustenta na repetição de gestos simples, mas contínuos. Há encontros diários, visitas regulares, momentos de oração que acontecem longe da exposição pública. “Longe dos holofotes”, como foi definido. Ainda assim, com presença constante na vida de quem precisa.
Durante a cerimônia, também foi destacado que essa atuação não se limita ao campo individual. Há uma dimensão coletiva que atravessa instituições e a própria cidade. “Há um grupo de mulheres que lhes apresentam a Deus constantemente em oração”, foi dito ao se referir ao trabalho voltado também para autoridades e para a sociedade como um todo.
Ao final, o que ficou evidente não foi apenas a entrega de homenagens, mas o reconhecimento de uma prática que segue viva, organizada e presente. Uma rede que se mantém ativa há décadas, sustentada por rotina, fé e continuidade. Uma atuação que, mesmo sem ocupar espaços de destaque, permanece influenciando o cotidiano de milhares de pessoas em Natal.