Em um encontro marcado pela pluralidade de vozes e pela tensão entre expectativas e frustrações, a segunda audiência pública sobre o Projeto de Urbanização e Paisagismo da Orla da Praia de Ponta Negra foi realizada na manhã desta quinta-feira 29, na sede da Associação dos Moradores dos Parques Residenciais Ponta Negra e Alagamar (Ampa). O encontro, que integra as etapas de escuta da população e de setores diretamente impactados, dá continuidade ao processo iniciado em outubro de 2025 com a primeira audiência pública, principal marco de abertura do diálogo entre Prefeitura do Natal e sociedade civil.
Coordenada por Arthur Dutra, secretário municipal de Concessões, Parcerias, Empreendedorismo e Inovação e coordenador do Grupo de Trabalho Nova Ponta Negra, a audiência desta quinta não apresentou um projeto definitivo, mas reforçou a importância das contribuições populares para subsidiar o termo de referência do concurso nacional de arquitetura e urbanismo que irá selecionar o plano urbanístico e paisagístico da nova orla. O certame será conduzido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), entidade com experiência reconhecida nesse tipo de concurso.

Segundo Dutra, “o futuro da orla já começou”, destacando que as escutas públicas buscam construir as bases do projeto com a cara da cidade, ouvindo moradores, comerciantes, usuários da praia e atores sociais diversos. Ele enfatizou que a participação não se esgota em uma única audiência — haverá outras até que a sistematização das contribuições esteja consolidada e sirva de base para o edital e o concurso.

Entre os consensos emergentes das conversas públicas apontados pelo secretário estão a necessidade de maior arborização, acessibilidade universal, espaço para manifestações culturais e o reconhecimento das atividades tradicionais, como a pesca artesanal e o trabalho das rendeiras.
Vozes da comunidade: expectativa e crítica
A audiência também foi palco de posições firmes de lideranças comunitárias. Para Kinji Tanaka, presidente da Ampa, o encontro representa uma importante oportunidade de “debater melhorias e soluções” para Ponta Negra, destacando a necessidade de uma reorganização da orla que contemple moradores e trabalhadores locais — pescadores, ambulantes e comerciantes — e não apenas os interesses turísticos.
Entre as principais bandeiras defendidas pela associação está justamente a garantia de que a requalificação não prejudique quem vive e sustenta sua renda na praia, com foco em resoluções práticas de problemas históricos, como a interrupção das atividades comerciais em dias de chuva.

Lia Araújo, presidente do Conselho Comunitário de Ponta Negra (Cria), adotou um tom mais crítico, reafirmando que a chamada “engorda” da praia — obra anterior de ampliação da faixa de areia — constitui um crime ambiental cujos efeitos ainda se fazem sentir e que, segundo ela, deveriam ser objeto de reparação antes mesmo da discussão de um projeto urbanístico maior. Araújo ressaltou que muitos moradores, especialmente idosos, enfrentam dificuldades de acesso devido à falta de rampas e infraestrutura adequada, e defendeu que a participação da comunidade tradicional seja garantida por meio de consulta livre, prévia e informada, em consonância com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
Contexto e próximos passos
A primeira audiência pública, realizada em 31 de outubro de 2025, já havia reunido um grande público e proporcionado a apresentação das diretrizes iniciais do processo de requalificação, como a ampliação do calçadão, áreas de sombreamento, acessibilidade e aumento de áreas verdes, além de promover a mobilização de pescadores e moradores preocupados com a preservação de espaços tradicionais.
O processo de escuta pública está previsto no regimento interno do grupo de trabalho instituído pelo município, que prevê a realização de, no mínimo, três audiências públicas para assegurar ampla participação popular e transparência no desenvolvimento do projeto.
Apesar das expectativas em torno de prazos, Dutra foi cauteloso ao afirmar que ainda não é possível definir quando a população — de Natal e de todo o estado — poderá desfrutar da nova orla concluída, ressaltando que a orientação da gestão municipal é avançar “o mais rapidamente possível, sem perder qualidade e participação social”.
A cobertura da 2ª audiência foi transmitida ao vivo pelo canal oficial da Prefeitura de Natal no YouTube, assim como a anterior, reforçando a aposta do poder público na transparência e no registro documental do processo de construção coletiva da Nova Ponta Negra.
O secretário municipal de Concessões, Parcerias, Empreendedorismo e Inovação e coordenador do Grupo de Trabalho Nova Ponta Negra, Arthur Dutra, informou – após o evento – que ainda serão realizadas uma oficina e mais uma audiência, mas a data não está definida. “Será depois do Carnaval. A partir daí, o que foi proposto vai se tornar realidade, de acordo com a decisão de todos que participarem do debate sobre o futuro da orla de Ponta Negra, em uma ação que beneficie os natalenses, principalmente os que tem na praia o seu sustento”, detalhou Arthur Dutra.