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Mensagem de bom dia: o mercado por trás das imagens que você recebe no WhatsApp
Por trás dessa despretensiosa imagem, que você poderia muito bem receber em qualquer grupo familiar no WhatsApp, está um mercado de empresas de comunicação e profissionais liberais que disputam cada clique dos brasileiros.
BBC
17/09/2020 | 09:40

“Bom dia. Tudo é maravilhoso quando temos pessoas especiais por perto!”, diz a mensagem escrita sobre um fundo rosa, envolvida em folhas e flores.

Por trás dessa despretensiosa imagem, que você poderia muito bem receber em qualquer grupo familiar no WhatsApp, está um mercado de empresas de comunicação e profissionais liberais que disputam cada clique dos brasileiros.

Baiano de Salvador, o empresário Ricardo Oliveira comanda uma rede de sites que alcança milhares de pessoas diariamente — o número exato nem ele mesmo sabe.

A produção, porém, é intensa.

Junto a Oliveira, outras sete pessoas (uma sócia, três funcionários e três freelancers) estão envolvidas na concepção, produção e publicação dos desejos de “bom dia”, “boa noite”, recados de otimismo, legendas prontas e mensagens religiosas em cinco dos sites mais bem ranqueados no Google — ou seja, aqueles que aparecem primeiro quando buscamos palavras como “mensagens de bom dia”.

Por dia, são publicadas mais de 10 imagens e 20 frases de efeito que internautas, ao visitarem os sites, podem copiar ou linkar direto para uma conta de WhatsApp com um clique.

Por dia, são publicadas mais de 10 imagens e 20 frases de efeito — que internautas, ao visitarem os sites, podem copiar ou linkar direto para uma conta de WhatsApp com um clique.

O resultado é que nos cinco sites — Mensagens de Bom Dia, Mensagens de Reflexão, Frases de Aniversário, Frases para Whats e Frases para Insta — o número de visitantes mensais varia de 900 mil a 3 milhões por mês, em cada um.

E é justamente esse volume que faz o negócio ser rentável: os anúncios colocados nos espaços publicitários dos sites são praticamente a única fonte de renda da empresa.

“Estando no meio digital, estamos mais propícios a sermos desatentos. E as empresas que fazem propagandas, com os anúncios na internet, se aproveitam dessa distração para nos vender as coisas”, explica Maria Augusta Ribeiro, especialista em netnografia (o estudo do comportamento em redes sociais), sobre essa já popular estratégia de negócios.

Quando surgiu, há quase 12 anos, a empresa de Oliveira faturava em cima de anúncios, mas produzindo conteúdo para blogs. Há sete, mudou o foco e passou a produzir mensagens que pudessem ser compartilhadas principalmente no Facebook. Hoje, é o WhatsApp que dá as cartas na mesa.

“A minha vida melhorou muito graças à internet e aos negócios que pude criar a partir dela”, diz o empresário, que nasceu e cresceu no Subúrbio Ferroviário, na periferia da Grande Salvador, sem revelar o faturamento.

Além das empresas de pequeno porte e de profissionais em Estados como São Paulo e Paraná, a BBC News Brasil identificou também grandes agências de comunicação que, entre os produtos, também produzem conteúdos para sites de mensagens e reflexão. O mais famoso deles é o Pensador, tocado por uma companhia de Portugal.

Diversão na aposentadoria

Uma vez nos grupos de WhatsApp, é impossível saber o alcance de determinado conteúdo.

Mas os criadores de conteúdo contam que não é raro algum contato enviar, sem saber, uma mensagem que eles próprios haviam produzido.

“Em épocas de festas, acontece mais, de uma tia minha mandar uma mensagem dando bom dia. Eu brinco perguntando se elas sabem que estão mandando pra mim o que eu mesmo produzi”, conta Ricardo.

O mesmo já aconteceu com a aposentada Eliete de Araujo, fundadora do site Megafrases.

Há um ano, ela pediu ajuda ao filho para colocar em prática um “hobby” e “levar alegria” às amigas do condomínio, no Rio de Janeiro.

“Sempre gostei desse tipo de mensagem, mas tinha uns sites que eu não gostava das imagens”, explica Eliete, que hoje já complementa a renda e paga uma colaboradora com o dinheiro de anúncios no site. E isso porque o Megafrases é considerado ainda um site de pequeno porte, com média de 100 mil visitantes mensais.

“Fico impressionada com o poder da internet. Hoje, me realizo ao me sentir útil depois da minha aposentadoria”.

O alcance das mensagens positivas

Se há a percepção de que mulheres mais velhas compartilham mais esse tipo conteúdo, os dados de acesso mostram que são as mulheres de 25 a 35 anos que mais procuram as mensagens.

“São elas que buscam, que sabem chegar no conteúdo. Mas uma vez no WhatsApp, as mais velhas gostam mais de compartilhar”, diz Ricardo Oliveira.

Para cálculo interno, ele projeta que, a cada 20 pessoas que visitam o site, uma baixa as imagens. E elas espalharam, em média, a dez pessoas, cada, no WhatsApp.

Ou seja, num site com visita mensal de 5 milhões de pessoas, as artes da empresa alcançariam 250 mil brasileiros.

Maria Augusta Ribeiro, que desenvolve trabalhos para marcas sobre comportamento digital na empresa Belicosa, destaca que, neste período de pandemia, mensagens de otimismo vêm viralizando ainda mais, com assuntos que vão da saúde mental ao amor.

“Se eu sorri pra você pessoalmente, imediatamente você sorri de volta. E esse é o gatilho mais simples para entender o digital. O meio se aproveita disso, dessas ligações de amor, para nos engajar”.

Mas nem tudo são flores: com a crise econômica, menos dinheiro sobra para anúncios online. Na empresa baiana, houve um baque de 70% nos últimos 6 meses — mas não por causa da audiência (que cresceu), mas justamente por menor quantidade de anúncios “caros”. No caso de Eliete, houve mais de 50% de queda no faturamento.

Interesse internacional

A paixão por brasileiros por esse tipo de mensagens já cruzou as fronteiras.

O norte-americano Christopher Bourgault, dono de uma empresa baseada em Los Angeles, nos Estados Unidos, adquiriu em março um dos sites mais bem ranqueados no Google sobre mensagens de “bom dia” e “amor” em português: o Amplino.org.

O que lhe chamara a atenção foi o alto número de visitas no site. “Vimos uma oportunidade diante de um site com conteúdo inspirador, otimista, principalmente nos tempos turbulentos de pandemia. Parecia uma aquisição fantástica. Não é sempre que temos a oportunidade de, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro e ajudar a criar uma mudança positiva no mundo”.

Bourgault não revelou os valores da transição com o brasileiro que havia criado o site junto com a filha e o colocou para vender.

Além do Amplino (o único em português), a empresa dos EUA conta com outros sites de produção de conteúdo. São mais de 10 colaboradores ao redor do mundo.

Sem revelar também os números de audiência, o norte-americano diz apenas que, com aquisição do site, se “familiarizou” com a grande popularidade do WhatsApp e desse tipo de mensagem no Brasil.

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