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Sustentabilidade
“Meio ambiente é qualidade de vida”, diz a presidente do CREA/RN
Em entrevista exclusiva ao Agora RN, a engenheira Ana Adalgisa Dias Paulino reforça a importância do plano diretor para a preservação do meio ambiente e, por consequência, para a qualidade de vida da população. Ela foi reeleita em outubro de 2020 à presidência do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia no Rio Grande do Norte
Redação
05/06/2021 | 07:44

Reeleita para presidir Sistema Confea/Crea e Mútua no Rio Grande do Norte em outubro do ano passado, com uma expressiva votação, a engenheira civil Ana Adalgisa Dias Paulino diz que Plano Diretor e meio ambiente caminham juntos quando o interesse é melhorar a qualidade de vida da população. Nesta entrevista ao Agora RN ela explica o que há de realidade nessa relação.

Agora RN: Em sua opinião, qual o maior desafio do Plano Diretor neste momento da vida de Natal?

Ana Adalgisa: O desafio maior é avançar para uma cidade dinâmica, sem tantas amarras, que traga o cidadão natalense para viver a cidade. Que tenha, além de habitação, serviços para que as pessoas possam usufruir deles. Uma cidade mais compacta onde as pessoas possam trabalhar e morar próximo do trabalho, evitando deslocamentos exaustivos e caros, diminuindo os engarrafamentos. Em resumo, moradia e comércio forte na mesma área.

Agora RN: A senhora poderia nos dar um exemplo do uso errado de um bairro?

Ana Adalgisa: Olha assim de cabeça, lembro de Morro Branco que hoje é quase um cemitério de casas, já que muitas delas foram fechadas por questão de segurança e poderiam ceder lugar a prédios de apartamentos beneficiando um maior número de pessoas. É um bairro arborizado e até dotado de certa infraestrutura.

Agora RN: Plano Diretor então, em sua opinião, une economia e qualidade de vida?

Ana Adalgisa: Sem dúvida. A preservação ambiental tem encontro marcado com o desenvolvimento econômico da cidade como um todo. É triste ver capitas vizinhas de Natal em pleno desenvolvimento e a gente parado sem sair do lugar. Precisamos ver Natal seguir esse desenvolvimento para que a cidade não se transforme num grande Morro Branco.

Agora RN: Qual a expectativa do CREA nessa revisão do Plano Diretor depois de 14 anos da anterior?

Ana Adalgisa: Muitas expectativas positivas. E agora que as discussões do Plano Diretor caminham para a fase final com a chegada à Câmara Municipal, mais ainda. Aliás, nosso diálogo com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo e a Ordem dos Advogados do Brasil a esse respeito tem sido muito tranquilo e produtivo.

Agora RN: Muita gente acha que Planos Diretores existem para melhorar o ambiente de negócio da construção civil. O que a senhora acha disso?

Ana Analgisa: Não é verdade. Há situações relevantes envolvidas. Na atual proposta de revisão do Plano Direto, por exemplo, Natal foi dividida em eixos de mobilidade, inclusive com o mapa do saneamento incluído. Isso vai facilitar a compreensão e, melhor ainda, as intervenções futuras sobre a cidade como um todo, até para orientar as políticas públicas e de ocupação. Mais ou menos como aconteceu em Curitiba onde se vê hoje uma ocupação de todos os seus eixos.

Agora RN: Para que as pessoas possam entender, quais as consequências dessa visão da cidade por eixos?

Ana Agalgisa: Na prática, agrupa as pessoas junto aos eixos tendo um impacto direto sobre a mobilidade delas, já que são áreas que dispõe de uma infraestrutura existente que precisa ser mais bem utilizada. Em outras palavras, o Plano Diretor existe para integrar a cidade, banindo o conceito antiquado de abordar problemas pontualmente. E é sob essa questão que eu defendo a cidade compacta, aproveitando melhor a estrutura que ela dispõe.

Agora RN: A última revisão do Plano Diretor de Natal foi há 14 anos. Quais os prejuízos de um atraso desse tamanho?

Ana Adalgisa: A consequência desse atraso na revisão do Plano Diretor jogou a cidade em compasso de espera no qual a infraestrutura e o mercado imobiliário ficaram parados, um esperando o outro. E isso deixou muita coisa a se fazer. Hoje, precisamos de uma urbanização na orla e correr atrás do prejuízo, pois desde então vários bairros foram criados e inflados sem qualquer planejamento.

Agora RN: Por exemplo?

Ana Agalgisa: O bairro do Planalto, por exemplo, inflado como programa Minha Casa, Minha Vida. Que adianta ter vários prédios de apartamento lá sem a estrutura para que os moradores desenvolvam o bairro organicamente? Mobilidade, saneamento, infraestrutura cederam lugar ao improviso de ações pontuais sem qualquer concatenação umas com as outras.

Agora RN: Fala-se muito sobre verticalizar mais a cidade. O que a senhora pensa sobre disso?

Ana Agalgisa: A cidade deve ser pensada como um todo e não apenas como a verticalização dessa ou daquela área. É perda de tempo e energia focar esforços em verticalizar mais o bairro A ou B, Ponta Negra ou Praia do Meio, quando o importante é pensar a cidade como um todo. Mitigar impactos negativos sobre toda a população, facilitando a mobilidade e a vida das pessoas. Plano Diretor, como o próprio nome sugere, é o pensamento macro. Sempre privilegiando o crescimento sustentável dos pontos de vista urbano e ambiental. E olhar tudo isso à luz da nossa maior atividade econômica e para a qual somos vocacionados desde sempre que é o turismo.

Agora RN: A senhora considera que Natal está ficando para trás em relação a outras capitais nordestinas?

Ana Adalgisa: Sem a menor sombra de dúvida. Quando a gente visita Fortaleza, por exemplo, salta aos olhos os resultados de orientações urbanísticas. Hoje, todo mundo só fala em João Pessoa, a grande queridinha do Nordeste. Mas se você vai a Maceió, dona de uma orla belíssima que sedia grandes eventos esportivos, perceberá ali as influências do Plano Diretor. A mesma coisa em Maceió. E a pergunta que fica é a de sempre: e Natal? Ora, se nós fomos igualmente beneficiados pela natureza, por termos um parque belíssimo dentro da cidade, que é Parque das Dunas, por que não usamos nada disso?

Agora RN: O que provoca isso em sua opinião?

Ana Adalgisa: Há muitas divergências entre ambientalistas e o mercado imobiliário, mas em minha opinião o equilíbrio deve reger essas relações. Já que um depende do outro para se manter. Nós temos zonas de desenvolvimento ambiental que até hoje não foram regulamentadas, é uma discussão que se arrasta desde 2010. É muito tempo! E dessas áreas, nenhuma chegou à Câmara Municipal. Temos a ZPA 8, que pega toda aquele mangue da Zona Norte e da Zona Oeste; temos a ZPA 10, temos a ZPA 7, que fica lá no Forte dos Reis Magos, a ZPA 9 que pega a região da Moema Tinoco, e que por falta de regulamentação não se pode fazer nada por ali, favorecendo invasões em detrimento do uso sustentável.

Agora RN: A pandemia do novo coronavírus parou o CREA?

Ana Adalgisa: De jeito nenhum. Como não paralisou também a construção civil, a agricultura e a agronomia, nem os parques eólicos ou a energia solar; tudo isso se manteve, bem como segurança do trabalho. Agora, essa pandemia fez com que nossa forma de trabalhar fosse um pouco modificada e as ferramentas on line aproximassem ainda mais as pessoas. Depois do susto inicial, retomamos as atividades para colocar este país para frente. A prova disso é que as Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) aumentaram em 2020 em relação a 2019. Segundo o Caged, a construção civil no RN teve o melhor primeiro trimestre desde 2014.

Agora RN: O que a senhora espera do futuro?

Ana Adalgisa: Espero o melhor com a aceleração da vacinação e o Plano Diretor, com novas concessões de portos e aeroportos no Brasil todo, com o marco regulatório do saneamento básico.

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