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Opinião

Mas, doutor, outra emergência mata a gente de vergonha; leia opinião de Crispiniano Neto

Crispiniano Neto
19/12/2023 | 05:00

Semana passada, a Câmara Federal abrigou audiência pública sobre o semiárido, solicitada pelo deputado Fernando Mineiro, intitulada “Seca, crise ambiental e social no Nordeste em 2024: Previsões, Gravidade e Respostas”.

Do ponto de vista técnico, um sucesso. Excelentes exposições e defesas e grande possibilidade de iniciar-se um processo de discussão, ainda que tardio, para mais uma seca que já nos bate às portas.

Audiência pública na Câmara para discutir a seca, por proposição do deputado federal FeRio Grande do Norteando Mineiro (PT) - Foto: Mário Agra / Câmara
Audiência pública na Câmara para discutir a seca, por proposição do deputado federal Fernando Mineiro (PT) - Foto: Mário Agra / Câmara

Do ponto de vista político, uma vergonha. Dos 133 deputados federais dos oito estados mais atingidos pelas secas, somente o propositor da audiência e um alagoano presentes. Nenhum senador do Polígono das Secas. Do RN, que tem 95% do território semiárido, só Mineiro e mais ninguém.

A perspectiva científica e popular é assustadora.
A palavra “emergência” dói em qualquer alma sensível, mas agem como se as secas fossem uma grande novidade. Até 2017, o Nordeste registrou 130 secas. Nas duas primeiras décadas deste século tivemos 14 anos de secas “brabas” ou de precipitações insuficientes.

Alguns dos problemas históricos já estão resolvidos. Especialmente a tecnologia. Seja para a irrigação, seja para a agropecuária xerófila. Também já se sabe tudo sobre agregação de valor aos nossos produtos. Temos crédito, canais de comercialização e vias de escoamento.

A água no RN já tem uma rede de grandes e médias barragens, adutoras, açudes e poços, que, se bem administrados podem amainar os efeitos da seca. No plano micro, as cisternas caminham para dois milhões no Nordeste.

Para barragens sempre cheias faltava o Canal do São Francisco. Para tanto o que não está pronto está sendo encaminhado. Ramal, novas barragens, programa de poços.
Desconhecemos tecnologia de Israel, Califórnia, Austrália ou donde seja, que não já se encontre por cá. Até a terra, que era e continua sendo um fator limitante aos agricultores familiares, já não é tão grave como na grande seca de 1979-1983. Pelo menos uns dois milhões de famílias possuem terras em comunidades rurais tradicionais e assentamentos de reforma agrária.

O colchão do Bolsa Família já freia invasões de feiras e supermercados.

Falta disposição política para sentarem todos à mesma mesa e buscarem viabilizar, na prática, as soluções já conhecidas e alcançáveis desde quando a Rede Globo reuniu 30 universidades e lavrou um documento intitulado “Nordestinos: O Brasil em busca de soluções”.

O Brasil é governado por um retirante das secas. O RN, por uma retirante que também dirige o Consórcio Nordeste com 9 governadores afinados.

Resta saber se a ideologia da punição e do ódio será, de novo, maior que a necessidade de matar a fome e a sede. E se vontade de derrotar governos, inclui a falta de escrúpulos de matar o povo de fome.