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Cultue

Da infância “sépia” à escrita como liberdade

Texto de Thaís Dias reflete sobre identidade, dor e o papel da arte no processo de autoconhecimento
Por Thaís Dias
30/03/2026 | 11:35

fui uma criança amena. se fosse uma cor, sépia. ruim de comer, era franzina, à serviço da minha infelicidade e asma metódicas e bastante sintomáticas. era só quando escrevia que me tornava robusta.

comecei arcaica com poemas caretas de versos rimados compulsórios. métrica regular. contagem criteriosa de sílabas poéticas. cheia de empolgação por me pensar como alguém interessante, menos sépia, eu mostrava as rimas perfeitas a minha mãe. como quem diz: “eu sou boa nisso”. ávida, serpenteava por entre a rigidez, era uma escrita cheia de regras. como minha infância. escrevia o que quisesse, desde que fosse o que todo mundo também quisesse. obediência em troca de afeto. cresci tal qual um bonsai. uma perfeita miniatura de expressões.

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Thaís Dias reflete sobre a escrita como forma de autoconhecimento e expressão - Foto: cedida

já grande e sem tempo para rimas, a professora nos contava sobre a origem da língua portuguesa. eu lírico, um milhão deles. codinomes. fases da arte. aos 15 anos, nessa aula, a criança sépia brilhou os olhos e sentiu urgência. batizada com o dom de ser diáfana, a inspiração me rasga com luz, e nasço. doía para nascer de dentro dela, um parto por dia. na arte, as mãos da sobrevivência. mais potente que qualquer droga psicotrópica. como um despertar da subconsciência, recordei o orgulho de mostrar as rimas. é verdade que eu seguia contida em tons opacos, obtusa demais. todavia, nesse momento, a arte foi um portal para uma alíquota, preciosa, de liberdade.

adulta, rompi com a subserviência que, em ato falho, impus ao meu arranjo de palavras, como impus a mim como mulher, filha e estudante. passei a trabalhar nas prosas poéticas para que fossem meu autorretrato, na obrigação de ser honesta com a capacidade de tornar belo meus sentidos e vivências mais intragáveis. expunha o vexame dos pensamentos de autoextermínio, como também a euforia de amar uma mulher pela primeira vez. eu líricos de mim, todas as facetas extraviadas. eu tinha a habilidade de descrevê-los mergulhados num banho de estética, um filtro entre os dedos, e o resultado era realmente como ouro: de encher os olhos.

como quem diz “eu sou boa nisso”. letras minúsculas e poucas vírgulas. eterna apenas na estética que ponho em línguas e linhas feitas de metáforas e alforrias.

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Autora potiguar transforma experiências pessoais em prosa poética – Foto: cedida

quando a vontade de viver era pouca, imaginava que se eu me fechasse dentro de mim, seria salva com tantas palavras, as mais bonitas, as que eu merecia. isso nunca aconteceu. ninguém nunca me tirou, nem poderia, de dentro das minhas remissões de vazio. nessas horas, só pude lançar mão do privilégio de saber nomear cada sentido das minhas entranhas. conhecer a si próprio, até as vísceras, é um passo no processo de cura. e eu pude. porque escrevi.

a poesia, que não me tira da angústia perene que habita na ausência daquilo que não pude ou não escolhi viver. a poesia, que nunca me proporcionou a imperturbabilidade da mente, como também nunca prometeu. a poesia, palco da minha intensidade fisiológica, onde é possível ter controle sobre cada peça-palavra, flexibilizá-las, e, justamente por isso, incapaz de em tempo algum replicar a minha humanidade em seus pormenores. mas que me bajula com a ilusão do poder de fazê-lo. a arte é essa carícia vitalícia ao ego, uma dose terapêutica de eudaimonia frente ao realismo adoecedor, ampolas direto na veia do coração, correndo rápido. alimento do vício em me conhecer.

às vezes me pergunto quem sou.
sou a autora desse texto.

Thaís Dias é potiguar e escritora.