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Emoções

“Geração do quase”: Jovens enfrentam crise de identidade e pressão na transição para a vida adulta

Especialista aponta aumento do sofrimento psíquico entre jovens de 20 a 25 anos, marcado por pressão, comparação e incertezas
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
10/04/2026 | 13:54

Existe uma expectativa silenciosa que acompanha a entrada na vida adulta. Ela não é formalizada, mas está presente em quase tudo: nas conversas familiares, nas redes sociais, nos planos traçados ainda na adolescência. Aos 20 e poucos anos, espera-se que a vida comece a ganhar direção — profissional, financeira, emocional.

Mas, para uma parcela crescente de jovens, esse momento tem sido marcado menos por clareza e mais por dúvida. Menos por construção e mais por desorganização interna.

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Psicóloga Renata Myrrha aponta alta do sofrimento psíquico entre jovens de 20 anos- Foto: Arquivo Pessoal

“O sofrimento, muitas vezes, se intensifica entre os 20 e 25 anos”, afirma a psicóloga clínica Renata Myrrha, com 20 anos de experiência no cuidado em saúde mental.

Na prática clínica, segundo ela, essa fase tem revelado um padrão recorrente. “Essa fase, socialmente romantizada como o início da vida adulta, tem se revelado, na clínica, como um período de profunda desorganização psíquica”, conta.

A descrição se distancia da ideia de juventude leve e experimental. O que aparece, em muitos casos, é uma combinação de angústia, insegurança e sensação de inadequação.

“O que encontramos nesses jovens adultos é: sensação de estar perdido, sem direção ou propósito; angústia diante das escolhas; comparação constante com pares que ‘já deram certo’; medo de fracassar e não corresponder às expectativas; dificuldade em sustentar autonomia emocional e financeira; solidão, mesmo estando cercado de pessoas”, explica a especialista.

A estudante Letícia Eduarda, de 21 anos, reconhece esse cenário no próprio cotidiano. Para ela, o que mudou não foi necessariamente a quantidade de demandas, mas a forma como elas são vividas. “Acho que a pressão é que tá diferente, não é que estejam mais sobrecarregados, é que a pressão que eles colocam em si mesmos tá maior”.

Essa pressão se traduz em uma sensação constante de atraso.“O que mais pesa é a constante impressão de que estamos atrasados”, conta. A percepção é reforçada por um ambiente digital que nunca se desliga. “Inconscientemente as redes acabam atrapalhando, por causa dos muitos estímulos. No lugar de descansar, nossa mente tem a falsa sensação de descanso, mas acaba ficando mais cansada”. E, sobretudo, pela comparação.“Parece que todo mundo tá alcançando algo menos você.”

Na leitura de Myrrha, esse fenômeno não é isolado. Ele compõe o que a psicóloga define como “a geração do quase”. “São jovens que quase se encontram, quase se realizam, quase se sentem suficientes.”

A característica central não é a ausência de conquistas, mas a dificuldade de reconhecê-las como válidas. Há sempre um próximo parâmetro, um novo padrão, uma expectativa ainda não alcançada. “Vivem entre a pressão de ‘dar certo’ e a sensação interna de não estar prontos.”

Esse conflito interno, no entanto, costuma ser mal interpretado. “Isso produz um sofrimento silencioso, frequentemente confundido com preguiça, imaturidade, falta de foco. Quando, na verdade, estamos diante de angústia, insegurança e medo de existir no mundo real”, explica.

Ao contrário da adolescência, em que ainda existe algum tipo de supervisão mais próxima, a vida adulta traz autonomia — mas nem sempre suporte. “Diferente do adolescente, que muitas vezes ainda é observado pela família e escola, o jovem adulto sofre com mais autonomia e menos suporte.”

Essa combinação torna o processo mais vulnerável. Muitos chegam à vida adulta sem ferramentas emocionais suficientes para lidar com frustração, incerteza e responsabilidade. “Muitos chegam aos 20 anos sem repertório emocional para sustentar a vida adulta, porque não tiveram espaço para elaborar suas dores antes”, afirma a psicóloga.

O estudante Robson Trigueiro, de 21 anos, descreve esse momento como um acúmulo de preocupações que se conectam. “Tudo me preocupa. Sem estudo, não consigo um trabalho desejável e sem trabalho não temos a mínima condição de viver uma vida pessoal digna”, compartilha.

A pressão não está em um único ponto — mas na soma deles. “Não é que estamos mais sobrecarregados, mas sim porque temos mais consciência do mundo enquanto jovens”, conta.

Essa consciência, aliada à instabilidade econômica e às exigências do mercado de trabalho, contribui para um estado constante de alerta. A servidora pública Brenda Confessor, de 23 anos, traduz essa sensação em uma pergunta recorrente. “O que mais pesa é a pressão constante do ‘será que vou conseguir?’”.

Ela descreve a incerteza como um elemento central da vida adulta. “Conseguir conquistar uma casa, um carro, me encontrar em uma profissão, viver tranquila, sem apertos? Essa insegurança sobre o futuro gera uma sobrecarga emocional muito grande.” Há também uma sensação de urgência nas escolhas.“Existe uma urgência imposta em escolher um curso e uma profissão. Mas como ter certeza de algo sendo tão novo?”, conta.

A estudante Samara Stéfany, de 21 anos, amplia essa percepção ao falar sobre a lógica do desempenho.“A ideia de que uma pessoa só tem valor se for bem sucedida.” Esse padrão gera um ciclo difícil de interromper.“Você lê mais, estuda mais, trabalha mais, mas nunca parece o suficiente, sempre vai ter alguém melhor.”

O resultado é uma insatisfação constante e, junto com ela, o medo de falhar. “Você nunca fica satisfeito com o resultado do seu esforço. O medo de ‘dar errado’, de não conseguir atingir as próprias expectativas, o pavor de decepcionar… passa a ser sufocante”, afirma a estudante.

Em paralelo à pressão, cresce também a sensação de solidão. Segundo o Relatório Mundial da Felicidade 2025, 19% dos jovens adultos afirmam não ter ninguém em quem confiar — um aumento significativo em relação a levantamentos anteriores. Para Myrrha, isso está diretamente ligado à qualidade das relações.“Não é a ausência física que mais impacta, é a ausência emocional.”

A dificuldade de escuta também aparece nos relatos dos jovens. “Acredito que a maioria não entende”, diz Letícia. “São gerações com criações e realidades muito diferentes.”

Brenda complementa essa percepção. “Às vezes parece que estamos exagerando, quando na verdade só estamos tentando nos entender.”

Sem validação, o sofrimento tende a se intensificar e a se tornar menos visível. “Do ponto de vista clínico, o que vemos é uma dificuldade crescente de transformar dor em palavra. E quando isso falha, a dor encontra outros caminhos: o corpo, o comportamento, o silêncio”, explica a psicóloga.

Esse processo, no entanto, não começa na vida adulta. Ele se forma antes — e se prolonga. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 mostram que 15,3% dos estudantes entre 13 e 17 anos no Rio Grande do Norte afirmaram sentir que a vida não vale a pena na maior parte do tempo. Em Natal, o índice chega a 17,5%.

Para Myrrha, os números não indicam exagero, mas um fenômeno coletivo. “Os dados mais recentes sobre saúde mental de adolescentes no Brasil não revelam uma geração frágil, revelam uma geração em sofrimento intenso e pouco escutada.” E há um ponto central que atravessa todas essas fases. “O que não é nomeado, se intensifica. O que não é escutado, se transforma em sintoma.”

Ao longo do tempo, o sofrimento muda de forma — mas não desaparece. “Se não cuidamos do adolescente, encontramos o jovem adulto em sofrimento. E se não escutamos esse jovem, encontramos o adulto adoecido. A questão não é sobre uma fase da vida. É sobre uma geração inteira tentando sobreviver emocionalmente em um mundo que exige muito e escuta pouco.”

Diante desse cenário, o que esses jovens buscam não é necessariamente resposta imediata, mas espaço. Espaço para não saber, para errar, para amadurecer sem a pressão constante de acertar. “O que esses jovens precisam, e raramente encontram, é espaço de escuta sem julgamento, autorização para não ter todas as respostas e tempo psíquico para amadurecer”, afirma a especialista.

A constatação final desloca o foco da análise. “Essa não é a geração mais triste da história. É a geração que mais tem mostrado, de forma explícita, o quanto está sofrendo. A pergunta que fica não é sobre eles. É sobre nós. Estamos, de fato, escutando?”, conclui.