O longa-metragem “Dark Horse”, que retrata a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), avançou no processo para chegar aos cinemas brasileiros. A distribuidora Europa Filmes protocolou na Agência Nacional do Cinema (Ancine) o pedido de registro da obra como produção estrangeira, etapa obrigatória para filmes internacionais que pretendem ser exibidos comercialmente no país.
A informação foi confirmada pela própria Ancine. Além do registro de obra estrangeira, a produção ainda precisará obter o Certificado de Registro de Título (CRT) e a classificação indicativa, emitida pelo Ministério da Justiça, antes de receber autorização para estreia nos cinemas brasileiros.

Inicialmente previsto para ser lançado antes das eleições de outubro, o filme permanece sem data oficial de estreia. A análise do pedido costuma levar cerca de um mês, mas, neste caso, o prazo pode ser maior em razão de uma investigação conduzida pela Ancine sobre possíveis irregularidades durante a produção.
Segundo a agência, uma das questões analisadas é a ausência da comunicação prévia obrigatória para produções estrangeiras realizadas em território brasileiro.
Dirigido pelo cineasta norte-americano Cyrus Nowrasteh e estrelado pelo ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em A Paixão de Cristo, o longa foi roteirizado pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP). A produção é assinada pela Go Up Entertainment, empresa brasileira sediada nos Estados Unidos, que reuniu profissionais brasileiros e estrangeiros durante as filmagens.
Desde o início da produção, “Dark Horse” acumula diferentes controvérsias. Entre elas estão denúncias envolvendo pagamentos atrasados, relatos de agressões e acusações de assédio moral contra figurantes brasileiros durante as gravações.
Outra frente de questionamentos envolve o financiamento da obra. Em maio, o Intercept Brasil divulgou mensagens atribuídas ao pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a publicação, Flávio solicitava recursos para concluir a produção. As mensagens indicariam que Vorcaro teria desembolsado R$ 61 milhões de um total de R$ 134 milhões previstos para o projeto.
O pedido de registro na Ancine ocorre poucos dias após a Paris Filmes informar publicamente que recusou uma proposta para distribuir o longa no Brasil. A empresa, responsável por franquias como Jogos Vorazes, afirmou que decidiu não assumir a distribuição da produção.
Mesmo após concluir as etapas regulatórias, o filme ainda dependerá do interesse das redes exibidoras para conquistar espaço no circuito comercial. Segundo profissionais do setor audiovisual citados pela reportagem, obras com forte conteúdo político, especialmente em períodos eleitorais, costumam enfrentar maior resistência por parte dos programadores de cinema.
Em maio deste ano, o documentário “A Colisão dos Destinos”, também centrado em Jair Bolsonaro, foi exibido em 17 estados brasileiros, mas permaneceu fora das principais redes de cinema e do circuito comercial concentrado entre Rio de Janeiro e São Paulo.
A Europa Filmes mantém registro na Ancine desde 2010 e possui diversas obras distribuídas no país. Em 2023, entretanto, a agência reprovou a prestação de contas referente à distribuição do documentário “Marcha da Vida”, sobre sobreviventes do Holocausto, determinando a devolução de recursos públicos utilizados no projeto.
Já a Go Up Entertainment está registrada na Ancine desde 2025 e, até o momento, não lançou produções no Brasil nem no exterior. Sua fundadora, a jornalista Karina Ferreira da Gama, também preside o Instituto Conhecer Brasil, entidade que é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) em razão do repasse de R$ 2 milhões ao deputado Mario Frias para produção de filmes.