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Saúde mental
Estragos ocultos: pandemia faz aumentar casos de distúrbios psicológicos no RN
Em meio à crise da Covid-19, aumentaram os casos de suicídio no estado. Isolamento social, desemprego e violência doméstica foram fatores agravantes dos quadros de doenças psicológicas
Nathallya Macedo
19/10/2020 | 04:01

Maria da Silva (nome fictício) lida com a depressão há anos. Ela perdeu o pai em 2011, vítima de um câncer no estômago, e acredita que a morte dele desencadeou os primeiros sintomas da doença psicológica. De lá para cá, foram vários dias de altos e baixos em uma constante montanha russa de sentimentos. “Trabalhei a vida toda como auxiliar administrativa, mas perdi um bom emprego em 2014 porque tive uma sequência de episódios depressivos profundos”, relembrou a potiguar de 45 anos.   

Além da depressão, Maria foi diagnosticada com transtorno bipolar e síndrome do pânico. Por causa dessas condições, ela vai a consultas regulares com um médico psiquiatra, que receita remédios controlados. “Mas sempre que tento ir com frequência ao psicólogo, desisto. Fico achando que meus problemas não possuem solução. A questão financeira também inviabiliza o tratamento, já que fazer terapia se torna caro quando não se tem plano de saúde”, contou, em entrevista ao Agora RN.  

Quando finalmente conseguiu um novo trabalho em uma empresa de software, em dezembro de 2019, ela acabou sendo demitida assim que a pandemia da Covid-19 virou uma realidade em Natal – em março deste ano. “Foi um baque. Estava fazendo planos, mas fui freada. Acredito que muita gente se sentiu assim, como se os propósitos tivessem ido por água abaixo e sem expectativa de retorno. Tudo isso somado ao medo de pegar coronavírus e ficar entubada em uma UTI”.  

Com a perda do emprego e consequente falta de dinheiro, isolada em casa, Maria enfrentou pensamentos suicidas. “Tive discussões com familiares que também me deixaram mal e cheguei a considerar a morte, mas encontrei forças para seguir. Ainda estou sem trabalhar, porém, quero pensar que outras oportunidades surgirão”. Enquanto isso, ela consegue se sustentar com o auxílio-doença concedido pelo INSS, no valor de R$ 1.050.  

Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos meses apontam que o isolamento social, o desemprego e a violência doméstica foram fatores que agravaram o contexto pandêmico. À reportagem, a psicóloga Emanuelle Camelo, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do estado (CRP-RN) e participante da coordenação de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), afirmou que os casos de transtornos psicológicos aumentaram exponencialmente em decorrência da quarentena imposta para reduzir a transmissão do vírus.   

“O impacto foi grande porque muitas pessoas não sabem lidar com situações imprevistas, o que abre espaço para os cenários de medo e desesperança. Sem falar que o emprego é uma ocupação para a mente. Então, a ausência de demandas e responsabilidades provoca o ócio, causando momentos de ansiedade. E pior: o acúmulo de dívidas pode ser angustiante”, sublinhou a profissional.   

Aumento de suicídios  

Na esteira da Covid e seus desdobramentos, aumentaram os casos de suicídio no Rio Grande do Norte em uma segunda onda de danos à saúde. O crescimento das autolesões letais foi de 14,5% entre janeiro e setembro de 2020, quando comparado ao mesmo período de 2019. É o que mostram os dados reunidos pela UFRN por meio da Rede e Instituto de Pesquisa Observatório da Violência (OBVIO), através das seguintes fontes: ITEP, DATASUS, DHPP, CIOSP, COINE e MPE.   

Ao todo, 189 pessoas cometeram suicídio até o fim de setembro. Junho foi o pior mês, com 27 mortes registradas contra 15 no mesmo mês em 2019, seguido por agosto, com 26 suicídios, e setembro, com 23. O levantamento demonstra ainda que a maioria das ocorrências – 145 – foi dentro de casa. A maioria também foi de homens: 149 deles tiraram a própria vida.   

“O cuidado com a saúde mental é historicamente negligenciado no país, tanto por parte da população quanto do poder público. E, mesmo que existam transtornos psiquiátricos impulsionadores, o contexto externo passou a ser o maior influenciador do suicídio, dependendo das condições de existência as quais as pessoas são submetidas. Aliás, antes da pandemia, faltavam políticas que garantissem uma boa qualidade de vida. Agora, só piorou. Como as pessoas ainda evitam falar sobre saúde emocional, como um tabu, os estragos silenciados podem perdurar por anos”, argumentou Emanuelle.  

Ajuda 

As redes de apoio para o cuidado em saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Norte são as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). “Costumo recomendar que o indivíduo converse com alguém de confiança para desabafar. Caso a tristeza continue, é essencial que procure o auxílio profissional de terapeutas capacitados. O atendimento é porta aberta, tanto na UBS quando no CAPS”, disse a psicóloga.  

Na capital potiguar, o Hospital Municipal de Natal é referência para o apoio a crianças de até 13 anos. Já para adolescentes acima dos 14, adultos e idosos, as UPAs de Pajuçara, Potengi, Cidade da Esperança e Cidade Satélite possuem psicólogos para atendimentos de urgência, além do Centro Integrado de Serviços em Saúde – Unidade Pescadores. “Não podemos mais evitar, precisamos encarar esse problema de frente. Se antes era urgente pensar na saúde mental de todos os cidadãos, agora é uma questão de sobrevivência”, indicou Emanuelle.  

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